quarta-feira, setembro 14, 2016

Muriel Barbery - A elegância do ouriço

Muriel Barbery - A elegância do ouriço - Editora Companhia das Letras - 352 páginas - tradução de Rosa Freire D'Aguiar - Lançamento no Brasil 18/02/2008

O sucesso deste romance, que já ultrapassou dois milhões de cópias vendidas na França, deve muito ao improvável e até mesmo surpreendente charme de suas duas protagonistas, que alternam em primeira pessoa as vozes narrativas: Renée Michel, a solitária viúva ranzinza de cinquenta e quatro anos, zeladora de um prédio luxuoso no centro de Paris e a superdotada Paloma Josse de apenas doze anos, pertencente a uma das famílias ricas que habitam o mesmo prédio. As duas escondem por diferentes motivos e, cada uma a seu modo, as verdadeiras aptidões. Enquanto Renée, a zeladora rabugenta, é na verdade uma autodidata com profunda sensibilidade para a filosofia, música e arte em geral, a jovem Paloma tem uma capacidade nata para a literatura e escreve, em segredo, dois diários sobre o cotidiano no número 7 da Rue de Grenelle. Assim, ficamos conhecendo à partir dos pontos de vista muito diferentes das duas narradoras os detalhes das relações entre os moradores.

Renée Michel, que tem motivos para esconder a sua formação intelectual (motivos que ficarão evidentes ao longo da leitura), é o "ouriço" que dá o título ao romance, na descrição do diário de Paloma que passa a desconfiar da verdadeira formação da zeladora, porque ela "tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes." Mas a melhor descrição desta fascinante personagem, que tenta manter a todo custo a aparência brutalizada que todos os moradores ricos e preconceituosos esperam de uma zeladora, é da própria em um trecho inicial do romance muito bem-humorado e irônico que destaquei abaixo:
"Meu nome é Renée. Tenho cinquenta e quatro anos. Há vinte e sete sou a concierge, a zeladora do número 7 da Rue de Grenelle, um belo palacete com pátio e jardim interno, dividido em oito apartamentos de alto luxo, todos habitados, todos gigantescos. Sou viúva, baixinha, feia, gordinha, tenho calos nos pés e, em certas manhãs autoincômodas, um hálito de mamute. Não estudei, sempre fui pobre, discreta e insignificante. Vivo sozinha com meu gato, um bichano gordo e preguiçoso, cuja única particularidade digna de nota é ficar com as patas fedendo quando é contrariado. Ele e eu não fazemos nenhum esforço para nos integrar no círculo de nossos semelhantes. Como raramente sou simpática, embora sempre bem-educada, não gostam de mim, mas me toleram porque correspondo tão bem ao que a crença social associou ao paradigma da concierge, que sou uma das múltiplas engrenagens que fazem girar a grande ilusão universal de que a vida tem um sentido que pode ser facilmente decifrado. E, assim como está escrito em algum lugar que as concierges são velhas, feias e rabugentas, assim também está gravado em letras de fogo, no frontão do mesmo firmamento imbecil, que as ditas concierges têm gatos gordos e hesitantes que cochilam o dia inteiro em cima de almofadas cobertas de crochê." (págs. 15 e 16)
A jovem Paloma Josse pode parecer um pouco arrogante, principalmente no trecho abaixo, devido à sua inteligência rara e nata, mas não compartilha dos mesmos preconceitos do resto da família e de outros moradores do prédio. A sua inadequação aos valores de uma sociedade de consumo que espera dela um comportamento de menina rica e mimada faz com que ela não encontre sentido para a vida e tome a decisão de cometer suicídio no dia do seu aniversário de treze anos. Esta trágica opção é narrada pela menina sempre com bom humor e brilhantismo. Todas as suas impressões sobre o cotidiano da família e dos vizinhos ela descreve em dois diários: "Pensamentos profundos" e "Diário do movimento do mundo". Paloma encontrará conforto ao descobrir que, assim como ela, a zeladora do prédio também esconde algo de sua personalidade que as outras pessoas comuns não conseguem enxergar.
"Tenho doze anos, moro no número 7 da Rue de Grenelle num apartamento de gente rica. Meus pais são ricos, minha família é rica, e minha irmã e eu, por conseguinte, somos virtualmente ricas. Meu pai é deputado, depois de ter sido ministro, e por certo acabará na presidência da Câmara, esvaziando a adega do Hôtel de Lassay, a residência oficial. Minha mãe... Bem, minha mãe não é propriamente uma águia, mas é educada. Tem doutorado em letras. Escreve sem erros seus convites para jantar e passa o tempo a nos infernizar com referências literárias (...) O fato é que sou muito inteligente. Excepcionalmente inteligente, até. Se alguém olhar para as crianças da minha idade, vai ver que há um abismo. Como não tenho a menor vontade de que reparem em mim, e como numa família em que a inteligência é um valor supremo uma criança superdotada nunca ficaria em paz, tento, no colégio, reduzir meu desempenho, mas mesmo assim sou sempre a primeira da classe. Poderia pensar-se que fingir ter uma inteligência normal, quando, como eu, aos doze anos, se tem o nível de uma aluna do pré-vestibular para filosofia, é fácil. Pois bem, nada disso! Tenho de dar duro para parecer mais idiota do que sou." (págs. 20 e 21).
Tudo está para mudar no luxuoso prédio após a chegada de um novo morador, o simpático japonês Kakuro Ozu que se alinha com o gosto refinado das duas protagonistas, principalmente com as escolhas da zeladora viúva no campo das artes e cultura já que ambos apreciam, por exemplo, a literatura russa de Tolstoi e as obras da pintura holandesa do século XVII. Renée terá que enfrentar o dilema de continuar a farsa diante dos outros moradores ou assumir a sua verdadeira forma de ver o mundo e um eventual romance com o novo amigo, também viúvo, que insiste em convidá-la para jantar. O final dessa história é totalmente inesperado e não posso detalhar mais a resenha sob o risco de estragar a surpresa dos leitores. A autora Muriel Barbery tem formação acadêmica em filosofia e este conhecimento fica evidente pelas diversas citações ao longo do texto. O romance é uma ótima opção e muito recomendado, sensível e original como as personagens.
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