sexta-feira, outubro 28, 2016

Liev Tolstói - Contos Completos


Liev Tolstói - Contos Completos - Editora Cosac Naify - três volumes - 2080 Páginas - Tradução direta do russo e apresentação de Rubens Figueiredo - Lançamento 17/09/2015.

Esta é uma das mais bem cuidadas edições da infelizmente extinta editora Cosac Naify. O projeto gráfico é de Flávia Castanheira que soube criar uma solução bonita e prática para acomodar os três volumes em formato pequeno e capa flexível, tornando a leitura mais confortável e facilitando o manuseio dos livros que, de outra forma, ficariam muito pesados. As fotos que ilustram a edição são de Serguei Mikháilovitch Prokúdin-Gorskii (1863 - 1944), um dos pioneiros da fotografia em cores através de uma técnica que consistia na superposição de três chapas de vidro, capturando a mesma imagem em exposições sucessivas sob um filtro vermelho, um azul e outro verde. Esta foi mais uma decisão adequada ao projeto gráfico da antologia porque o fotógrafo, assim como Tolstói, soube representar com originalidade e autenticidade toda a beleza dos costumes do povo, a história e a geografia da Rússia.

O trabalho de tradução direta do russo das quase 300 histórias escritas por Tolstói em 60 anos de carreira coube ao escritor e professor Rubens Figueiredo que levou três anos para terminar a tarefa. Figueiredo já havia traduzido recentemente alguns romances de Tolstói para a Cosac Naify tais como: "Ana Kariênina", "Ressurreição" e, principalmente, o clássico de 2.500 páginas "Guerra e Paz". Apesar de muitos contos de Tolstói já terem sido publicados anteriormente em nosso país por outras editoras, normalmente em traduções indiretas do francês e inglês, é a primeira vez que a totalidade dos contos é publicada em uma mesma antologia e vertidos diretamente do idioma russo. Rubens Figueiredo também ficou responsável pela apresentação, que situa a obra de Tolstói no conturbado contexto político e histórico da época.
"Entre a década de 1850 e os primeiros anos do século XX, período em que Tolstói escreveu sua obra, a Rússia passou por profundas transformações. A urbanização, a industrialização e a introdução das relações capitalistas, promovidas pelo regime tsarista, acumularam marcas traumáticas na sociedade e na cultura. As formas antigas de vida, de origens agrárias e, em muitos aspectos, alheias à experiência histórica da Europa  modelo de todas aquelas mudanças , estavam profundamente enraizadas nos costumes e nos valores locais. (...) Por toda a vida, Tolstói dedicou uma atenção incomum a populações, classes e grupos sociais em situação subalterna, oprimida, marginal, que se encontravam em diferentes formas de conflito com a ordem dominante. (...) Assim, nos contos de Tolstói figuram com destaque ciganos, cossacos, vários povos do Cáucaso, sectários religiosos, camponeses (os mujiques), servos, criados, soldados, criminosos, presos, mulheres velhos, crianças. (...) Tolstói era herdeiro de uma antiga família de senhores de terra. Órfão ainda bem pequeno, foi criado e educado segundo os padrões da elite russa. A desigualdade social era tão patente que mesmo setores da elite não se conformavam com a pobreza das massas camponesas e dos trabalhadores urbanos, então em expansão. A vida do povo russo e as relações sociais e históricas que o constituíam são o tema dos contos de Tolstói, mas também determinam sua forma. No conjunto, seus contos soam como uma voz que se encontra sob uma pressão terrível, mas que resiste e exprime, em numerosas variantes, um mesmo núcleo de questionamentos e chamados à consciência." - Volume 1 - Pgs. 25 a 31 - Apresentação de Rubens Figueiredo.

Os contos são apresentados em ordem cronológica com uma variedade de técnicas narrativas. No primeiro volume constam, portanto, os textos mais longos produzidos à partir da experiência do então jovem Tolstói ao prestar o serviço militar na Criméia entre 1851 e 1856, a vida (e morte) dos soldados e oficiais nas batalhas, o medo e a coragem lado a lado, a beleza e o horror da condição humana em situações extremas, principalmente nos lindos contos de Sebastopol. Por outro lado, estão descritas também as aventuras e loucuras da mocidade, jogos, mulheres e bebida. Temas que deixaram de protagonizar a literatura de Tolstói no final da carreira.
"Mikháilov, ao avistar a bomba, jogou-se no chão e, assim como Praskúkhin, semicerrou as pálpebras, abriu e fechou os olhos duas vezes e lhe veio uma vastidão de pensamentos e sentimentos naqueles dois segundos, o tempo que a bomba levou para explodir. Em pensamento, rezou para Deus e não parava de repetir: 'Seja feita Sua vontade! Mas para que entrei no serviço militar?', pensava ao mesmo tempo. 'E ainda por cima entrei logo na infantaria para participar da campanha; não seria melhor ter ficado no regimento dos ulanos na cidade de T. e passar o tempo com minha amiga Natacha?... Agora, olhe só no que deu!' E começou a contar: um, dois, três, quatro, imaginando que, se a bomba explodisse num número par, ele ficaria vivo, mas se fosse ímpar, ele ia morrer. 'Está tudo acabado! Estou morto!', pensou, quando a bomba explodiu (ele não lembrava mais se foi num número par ou ímpar), e sentiu um impacto e uma dor atroz na cabeça. 'Senhor, perdoai meus pecados!', exclamou, erguendo os braços, levantou-se um pouco e tombou de costas, sem sentidos." - Volume 1 - Pág. 232 - "Sebastopol em maio".
No segundo volume, os contos, muito curtos, passando a refletir a experiência de Tolstói com a educação das crianças camponesas, se transformam em fábulas populares. Esses textos formam os quatro "Livros Russos de leitura" e a "Nova cartilha". Na verdade, o autor era descendente de uma família aristocrática, mas sempre se preocupou com as condições de exploração e pobreza das famílias no ambiente rural, criando assim em Iásnaia Poliana, propriedade da família no campo onde nasceu, uma escola de alfabetização para as crianças da região. Os textos deste volume são resultado das técnicas narrativas que ele desenvolveu juntamente com os alunos. Finalizando o segundo volume, uma série chamada de Contos populares, na verdade parábolas de forte conteúdo moral.
"A oliveira e o caniço discutiam sobre quem era mais forte e mais resistente. A oliveira zombou do caniço, dizendo que ele quebrava com qualquer ventinho. O caniço ficou quieto. Veio uma tempestade: o caniço balançou, sacudiu, curvou até o chão  sobreviveu. A oliveira ficou dura, com os galhos abertos contra o vento  e se partiu." - Volume 2 - Pág. 298 - "O caniço e a oliveira" (fábula)

O terceiro volume reúne os contos do período de 1885 a 1910 que marcam o interesse de Tolstói pela religião, mas não a religião "oficial" das igrejas que ele criticava, assim como as ações do governo. O autor se volta para um cristianismo original do evangelho, no sentido de fazer o bem ao próximo, sempre preocupado com as pessoas simples do povo russo. Um conto que me impressionou bastante neste volume foi "O patrão e o trabalhador" em que um senhor de terras, Vassíli Andreitch, tenta chegar a uma propriedade vizinha durante a noite, antes de outros proprietários, a fim de concretizar a aquisição de um bosque. Ele parte de trenó com um empregado de suas terras (mujique) chamado Nikita. Os dois (e o cavalo Mukhórti) se perdem durante uma forte nevasca, tão comum na Rússia em que são atingidas temperaturas de 10 ou 20 graus negativos com muita facilidade, não há outra alternativa do que passar a noite ao relento, o cavalo sem forças para continuar. Todos os componentes da fase final da literatura de Tolstói estão presentes neste texto: a luta pela sobrevivência em uma natureza inóspita, as relações de exploração entre proprietários e trabalhadores, a libertação do homem não pela revolução ou pela força, mas sim pela fé e a sua redenção através do amor ao próximo. Emocionante, ainda.
"'Ah, que noite comprida!', pensou Vassíli Andreitch, sentindo um calafrio percorrer sua espinha, e se abotoou de novo, cobriu-se e apertou-se ao cantinho do trenó, preparando-se para esperar com paciência. De repente, por trás do barulho monótono do vento, escutou nitidamente um som novo e vivo. O som aumentou de maneira contínua e, ao alcançar a nitidez perfeita, começou a diminuir, também de maneira contínua. Não havia a menor dúvida de que era um lobo. E o lobo estava tão perto que, pelo vento, dava para ouvir claramente como ele mudava o timbre da própria voz, movendo a mandíbula. Vassíli Andreitch baixou a gola do casaco e escutou com atenção. Tenso, Mukhórti também escutava, girando as orelhas e, quando o lobo terminou sua toada, o cavalo mudou a posição das patas e deu um relincho de advertência. Depois disso, Vassíli Andreitch não conseguiu, de jeito nenhum, nem dormir nem se acalmar. Por mais que tentasse pensar em suas contas, em seus negócios, em sua glória, dignidade e riqueza, o medo se apoderava dele cada vez mais, prevalecia sobre todos os pensamentos e, em todos os pensamentos, se misturava outro pensamento, o motivo de não ter ficado em Gríchkino para pernoitar." - Volume 3 - Págs. 250 e 251 - "O patrão e o trabalhador".
Espero que o acervo completo da Cosac Naify possa ser integralmente incorporado por outras editoras (e não somente os títulos mais rentáveis), esta edição em especial merecia e deveria ser preservada exatamente da forma como foi concebida. Enquanto houver estoque (que expressão mais absurda) ainda podem ser adquiridos exemplares no site especial Cosac Naify da Amazon desta obra em preços promocionais, recomendação melhor do que esta é impossível!
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