sábado, novembro 05, 2016

Alberto Manguel - Uma História Natural da Curiosidade

Alberto Manguel - Uma História Natural da Curiosidade - Editora Companhia das Letras - 488 Páginas - Tradução de Paulo Geiger - Lançamento no Brasil: 18/08/2016

Podemos dizer que o ensaísta, romancista, tradutor e editor Roberto Manguel é um cidadão do mundo e intelectual com formação erudita muito rara nos dias de hoje. Nascido em 1948, em Buenos Aires, passou a infância em Israel, onde seu pai era embaixador argentino, retornando ao país natal com sete anos. Novamente em Buenos Aires, quando Manguel ainda era adolescente, conheceu Jorge Luis Borges, já quase cego. O famoso autor argentino precisava que lessem em voz alta para ele e Manguel tornou-se um dos leitores de Borges,várias vezes por semana de 1964 a 1968. Depois desse período, nos anos 1970, viveu na França, Inglaterra, Itália e Taiti trabalhando para editoras e jornais e, principalmente, sendo um leitor voraz. Nos anos 1980, o autor mudou-se para o Canadá onde tornou-se cidadão canadense. Em 2000, comprou um presbitério medieval na França, e reformou a biblioteca para alojar o seu acervo de mais de 30.000 livros. Finalmente, em 2015 foi convidado para o cargo de Diretor da Biblioteca Nacional da Argentina.

O resumo inicial da biografia de Manguel explica um pouco da sua curiosidade e também a formação nas áreas de filosofia, literatura e história que possibilitaram a criação deste ambicioso livro organizado em torno de algumas questões que o autor tenta responder com o auxílio de grandes escritores e pensadores do passado, tais como: Sócrates, Platão, Michel de Montaigne, Tomás de Aquino, David Hume, Cervantes, Borges, Lewis Carroll e, principalmente, Dante Alighieri. Alberto Manguel é, antes de mais nada, um grande leitor e estudioso apaixonado da "Divina Comédia", utilizando Dante e a sua obra como um fio condutor de todo o projeto do livro, nem sempre fácil de acompanhar e que exige bastante do leitor. Na verdade, em alguns momentos, é difícil avançar sem alguma pesquisa complementar (é recomendável, no mínimo, relembrar previamente um pouco da estrutura da "Divina Comédia" em suas três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso). Apresento algumas das dezessete questões levantadas em cada capítulo.

O que é curiosidade?
Na visão do autor, hoje as nossas instituições educacionais estão interessadas em pouco mais do que eficiência material e lucro financeiro, não estimulando o ato de pensar, por si mesmo, e o livre exercício da imaginação. "Escolas e colégios tornaram-se mais um campo de treinamento para aptidões do que fóruns para questionamentos e debates. E as faculdades e universidades não são mais viveiros para aqueles pesquisadores que Francis Bacon, no século XVI, chamou de 'mercadores da luz'. Ensinamos a nós mesmos a perguntar 'Quanto isso vai custar?' e 'Quanto tempo isso vai levar?' em vez de 'Por quê?'. (...) 'Por quê?' (em suas muitas variações) é uma pergunta muito mais importante por ser feita do que pela expectativa de uma resposta. O simples fato de pronunciá-la abre um sem-número de possibilidades, pode acabar com concepções prévias, suscitar inúmeras e frutíferas dúvidas." (Págs. 14 e 15)

O que queremos saber?
"Criamos histórias para dar um formato a nossas perguntas; lemos ou ouvimos histórias para compreender o que queremos saber. Em cada lado da página, somos levados pelo mesmo impulso de questionamento, perguntando quem fez o quê, e por quê, e como, e por que o fazemos, e o que acontece quando algo é feito ou não. Nesse sentido, todas as histórias são espelhos do que acreditamos ainda não saber. Uma história, se for boa, suscita em sua audiência tanto o desejo de saber o que acontece em seguida quanto o desejo conflitante de que a história nunca termine: essa dupla ligação explica nosso impulso para contar e ouvir histórias, e mantém viva nossa curiosidade." (Págs. 59 e 60)

Como raciocinamos?
"Antes de Platão, o termo grego 'sophistes' era uma denominação positiva, relacionada com as palavras 'sophos' e 'sophia', que significam 'sábio' e 'sabedoria', designando um artífice ou artista talentoso, como um adivinho, um poeta ou um músico. Os lendários Sete Sábios da Grécia foram chamados de 'sophistai' (na época de Homero, 'sophie' era um talento de qualquer tipo), assim como o foram os filósofos pré-socráticos. Depois de Platão, o termo 'sofisma' veio a significar 'raciocínio que é plausível, falaz e desonesto', e um discurso sofista, uma miscelânea de argumentos falsos, comparações enganosas, citações distorcidas e metáforas absurdamente misturadas." (Pág. 81)

Como podemos ver o que pensamos?
"Não há nada que possa ser pronunciado que não possa ser escrito e lido. Nada: nem mesmo as palavras de Deus ditadas a Moisés, nem mesmo os cantos das baleias transcritos por biólogos, nem mesmo o som do silêncio registrado por John Cage. Dante compreendeu essa lei da representação material: em seu Paraíso, as almas dos abençoados lhe aparecem como rostos que emergem de um espelho enevoado e gradualmente assumem uma forma clara e reconhecível. De fato, como os pensamentos, elas não têm corporalidade, uma vez que no céu não existe espaço ou tempo, mas gentilmente assumem feições visíveis, como se fossem signos escritos, de modo que Dante possa ser testemunha da experiência da vida por vir. Os próprios espíritos não precisam de muletas; nós precisamos." (Pág. 105)

Como nós perguntamos?
"Até onde consigo me lembrar, sempre acreditei que minha biblioteca tinha todas as respostas a todas as perguntas. E se não tinham a resposta, então ao menos uma melhor redação da pergunta que me ia lançar ao longo do caminho do entendimento. Às vezes vou buscar um autor ou livro específico, ou um espírito simpático, mas frequentemente deixo a sorte me guiar: a sorte é um excelente bibliotecário. Leitores na Idade Média usavam a 'Eneida' de Virgílio como instrumento de adivinhação, fazendo uma pergunta e abrindo o livro em busca de revelação; Robinson Crusoé faz algo muito semelhante com a Bíblia para ir buscar orientação em seus longos momentos de desespero. Cada livro pode ser, para o leitor certo, um oráculo, respondendo ocasionalmente até mesmo a perguntas não feitas, como que pondo em palavras o que Joseph Brodsky chamou de 'batida silenciosa'. O vasto oráculo da internet é menos útil para mim; provavelmente porque não navego muito pelo ciberespaço, suas respostas são ou literais demais ou banais demais." (Págs. 119 e 120)
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