domingo, novembro 13, 2016

As cidades mais lindas são aquelas que não existem

A Torre de Babel (1563) - Pieter Bruegel, o Velho (1525 - 1569)
Em "As cidades invisíveis", Italo Calvino imagina um diálogo entre Marco Polo e o poderoso imperador mongol Kublai Khan. Este livro, que não se pode definir facilmente, é a descrição de Polo das 55 cidades que ele supostamente teria visitado em um império que incorporava no século XIII as regiões ocupadas hoje pela Mongólia, Tibete e a China. Algumas versões da biografia do famoso mercador veneziano consideram que ele realmente passou 17 anos na região (enquanto outras questionam até mesmo a sua existência). Italo Calvino não tem compromisso com a geografia em suas descrições que são ao mesmo tempo irreais e maravilhosas. Cidades com nomes de mulheres, tais como Diomira, Isidora, Dorotéia, Zaíra e tantas outras, vão desfilando em uma sequência de histórias que parece não ter fim, algo como as "Mil e Uma Noites". Kublai Khan não acredita totalmente nas narrativas, mas as descrições são tão detalhadas e fascinantes que ele, assim como o leitor, se deixa levar e perder pelas cidades que não existem. 

Outra cidade inexistente e inesquecível é a Macondo de "Cem Anos de Solidão", onde Gabriel Garcia Márquez imaginou a saga de sete gerações da família formada por José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán. Um romance que tem um dos inícios mais belos da literatura: "uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos". Um lugar assim não se encontra em mapa algum. No entanto, como toda cidade imaginada, Macondo também tem uma origem real, ela seria inspirada em Aracataca, local onde o autor passou a infância na Colômbia. Macondo era o nome de um bananal que se localizava nas imediações deste município. Em 25 de junho de 2006, houve um referendo para mudar o nome para "Aracataca-Macondo", mas esta homenagem não foi possível devido ao baixo comparecimento da população local, certamente deveriam ter problemas mais urgentes para resolver.

Falar de lugares que não existem me faz lembrar de Jorge Luis Borges, o mestre da literatura fantástica, que inventou não somente cidades, mas também mundos inteiros como no conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", do livro "Ficções", que é simplesmente impossível de resumir aqui. Em outro conto, "O Imortal", de "O Aleph", é apresentada ao leitor uma assustadora cidade sem nome com a marca do escritor argentino, labiríntica e construída de pedra no deserto africano, habitada por selvagens imortais e “anterior aos homens, anterior à terra”, obra de deuses “que estavam loucos”, onde Borges promove o encontro de um tribuno romano com o poeta grego Homero. Um pesadelo metafísico que trata da solidão humana e da mortalidade. Bem, nem sempre as cidades inventadas podem ser somente lugares agradáveis, mas nem por isso são menos lindas como criações da imaginação humana.

A Torre de Babel, cuja imagem abre esta postagem e também ilustra a capa da edição italiana de "As cidades invisíveis" de Calvino, independente da abordagem religiosa do Antigo Testamento e, tendo existido ou não, pode ser interpretada como um dos símbolos mais antigos da arrogância humana que imaginou uma torre tão alta que alcançasse o céu e, por isso, os homens receberam o terrível castigo de nunca mais se entenderem (um castigo que parece persistir até hoje). Inspirado pelo mito da construção impossível, Jorge Luis Borges, sempre ele, criou um dos contos mais enigmáticos da literatura, "A Biblioteca de Babel", também de "Ficções", uma alegoria em que o mundo é formado por uma biblioteca infinita, onde os livros, escritos em muitas línguas, representam a única realidade, infelizmente inacessível aos bibliotecários, incapazes de decifrá-los por toda a eternidade.

Mesmo as cidades reais podem se transformar em "cidades invisíveis" como a Paris de 1920, onde escritores e artistas como o casal Scott e Zelda Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Picasso, Salvador Dali e tantos outros conviveram em um período único de criatividade na história das artes, tão bem representado no filme "Meia-Noite em Paris", escrito e dirigido por Woody Allen. A Dublin, única no tempo e no espaço, descrita por James Joyce em 16 de junho de 1904 em seu romance "Ulisses" onde acompanhamos um dia na vida do personagem Leopold Bloom assim como na "Odisseia" de Homero. E, por que não, o Rio de Janeiro de Machado de Assis e Lima Barreto que está perdido para sempre no passado, assim como o Rio da minha infância no qual ainda podíamos ir à praia e mergulhar em Copacabana. Sim, as cidades mais lindas são aquelas que nunca existiram ou que já não existem mais.
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