quarta-feira, novembro 09, 2016

Mia Couto - Sombras da Água

Mia Couto - Sombras da Água (segundo volume da trilogia "As Areias do Imperador"- Editora Companhia das Letras - 392 Páginas - Lançamento no Brasil: 23/09/2016.

Recomenda-se ler a resenha do primeiro volume da trilogia, "Mulheres de Cinzas", para melhor entendimento da obra.

Este romance dá continuidade à trilogia histórica que tem como base a ofensiva militar portuguesa, no final do século XIX, contra o último imperador do Estado de Gaza, Ngungunyane, no território que hoje é conhecido como Moçambique. Na verdade, a guerra colonial não era um conflito somente entre dois lados, mas sim uma complexa divisão entre tribos com línguas e culturas diferentes em oposição aos interesses de exploração colonial das metrópoles europeias."Quantas guerras há dentro de uma guerra? Quantos ódios se escondem quando uma nação manda os seus filhos para a morte?" (Pág. 86).

No final do primeiro volume, o sargento português Germano de Melo é gravemente ferido justamente por Imani, a jovem adolescente africana por quem ele havia se apaixonado. Ela dispara contra ele para defender o irmão em um levante popular que marchava em direção ao posto militar da aldeia de Nkokolani e acaba atingindo as mãos de Germano. Este segundo volume tem início então com uma jornada desesperada, em uma canoa no rio Inharrime, em direção ao único hospital da região. O estranho grupo, que tenta salvar a vida do português, é formado pela própria Imani, seu pai Katini, o irmão Mwanatu e uma amiga italiana do sargento, Bianca Vanzini.
"Tudo começa sempre com um adeus. Esta história principia por um desfecho: o da minha adolescência. Aos quinze anos, numa pequena canoa, eu deixava para trás a minha aldeia e o meu passado. Algo, porém, me dizia que, mais à frente, iria reencontrar antigas amarguras. A canoa afastava-me de Nkokolani, mas trazia para mais perto os meus mortos. (...) Sem pausa, os remos golpeavam o rio. E tinha que ser assim: conduzíamos Germano de Melo ao único hospital em toda a região de Gaza. O sargento vira as mãos despedaçadas num acidente de que eu fora responsável. Disparara sobre ele para salvar Mwanatu que caminhava à frente de uma multidão prestes a assaltar o quartel defendido pelo solitário Germano. (...) O nosso barco progredia com o vagaroso silêncio de um indolente crocodilo. As águas do Inharrime estavam tão imóveis que, por um momento, pareceu-me que não era a canoa, mas o próprio rio que flutuava." - Narrativa de Imani (Págs. 14 e 15)
A situação é muito arriscada porque toda a região está em guerra e o improvável grupo pode ser um alvo fácil, tanto por parte da violência do exército português quanto das forças locais de Ngungunyane, como reflete Imani: "Essa era a triste ironia do nosso tempo: enquanto em desespero procurávamos salvar um soldado branco, a poucos quilômetros dali se instalara um matadouro para milhares de seres humanos." (Pág. 19). Antes de chegarem ao hospital, fazem uma parada no povoado onde fica a igreja missionária do padre Rudolfo Fernandes que ensinou a língua portuguesa a Imani. Uma nova e importante personagem, a curandeira Bibliana, aplicará um estranho método para curar o sargento Germano. Neste cenário de destruição e falta de esperança, Mia Couto representa com este núcleo de personagens toda a complexidade étnica e religiosa da África.
"Envergando uma túnica vermelha com panos brancos atados à cintura, Bibliana ajoelhou-se no centro daquela imensa moldura de gente. Fez-se absoluto silêncio enquanto ela evocava os antepassados. Enumerou-os um por um, numa infindável lista, como se os estivesse recebendo à porta de casa. Aprendi que há uma diferença fundamental no modo como brancos e negros tratam os falecidos. Nós, os negros, lidamos com os mortos. Os brancos lidam com a morte. (...) Após a demorada evocação dos antepassados, Bibliana colocou à cabeça uma Virgem feita de gesso, envolta em fitas de uma impecável alvura. A multidão calou-se e todos se prostraram no solo. A adivinha desceu a ladeira e abraçou-se à estátua para juntas mergulharem no rio." - Narrativa de Imani (Pág. 52)
A técnica de composição do romance, assim como no primeiro volume, se divide entre os capítulos nos quais Imani é a narradora em primeira pessoa, intercalados com outros constituídos pela troca de correspondência entre o sargento Germano de Melo e seu superior direto, o tenente Ayres de Ornelas. Este contraste entre as vozes narrativas origina uma dinâmica que permite ao autor explorar as visões de mundo dos colonizadores portugueses e das tribos africanas. A estratégia possibilita assim uma análise mais abrangente em oposição à versão histórica oficial, normalmente tendenciosa.
"Há dois meses que estou encalhado neste lugar que, como diz o padre, não é lugar nenhum. Bianca anunciou que não aguenta mais, que vai embora na primeira ocasião. Também eu estou farto, cansado. Todavia, não me apetece sair de Sana Benene. Prende-me a este lugar a doce companhia de Imani. Não posso dizer que desisti inteiramente de sonhar com o  regresso a Portugal, essa prenda que Vossa Excelência tão generosamente me prometeu. Estou dividido. E estas cartas são a ponte entre os meus desencontrados desejos. Talvez seja por isso que agora me sucede algo novo e estranho. Quando me sento em frente aos papéis dou por mim a benzer-me antes de começar a escrever. Como se a escrita fosse um templo onde me resguardasse dos meus infernos interiores. Não fique pois, Excelência, preocupado em me responder. Escrever é um verbo intransitivo, o meu modo de rezar. E quem reza sabe que não há resposta." - Carta do sargento Germano (Págs. 160 e 161)
A dicotomia formada pelas posições conflitantes entre metrópole e colônia não acarreta necessariamente a formação de estereótipos no projeto dos personagens. Mia Couto soube criar os seus dois protagonistas, Germano e Imani, à partir da diluição de suas formações originais, seja pela educação europeia de Imani ou pelo período de imersão do sargento Germano na sociedade africana, ambos apresentam riqueza de perfil psicológico com dilemas existenciais e morais.
"Vossa Excelência não deixa de ter razão. Não faço ideia do que poderia ser uma vida conjugal com uma preta. Mesmo assim deixo crescer esse sonho. Ontem, aflorando esse assunto com Imani, ela disse algo que me parece irrefutável: que os nossos dois mundos não eram, afinal, tão diversos. E ela está certa. Em África ou na minha pequena aldeia de Portugal, as mulheres partilham as mesmas magras expectativas do que pode ser um casamento. De um marido nada se espera. Por isso ele não pode nunca desiludir. De uma mulher exige-se que seja mãe. Não dos filhos que escolha ter. Mas dos que por ordem de Deus e da Natureza nascerem desse homem de quem nada se espera. (...) Que filhos teríamos, perguntará Vossa Excelência. Como os apresentaria aos familiares portugueses? Quem me respondeu não foi Imani. Foi Bibliana que proclamou com a certeza das profecias: 'Que importa a cor da pele dos que nascerem? Gungunhana terá netos brancos portugueses e os portugueses terão netos africanos! Contrariar essa inclinação é travar o vento com uma peneira. O Tempo, meu filho, o Tempo é um grande misturador de sementes.'" - Carta do Sargento Germano (Pág. 144)
O avanço das forças militares portuguesas e o consequente aumento da violência na região acabam provocando o afastamento do casal, mas a situação se complica ainda mais quando o pai de Imani decide oferecê-la como esposa para o imperador Ngungunyane. Por sinal, à medida que os portugueses vencem batalhas importantes e se aproximam de uma vergonhosa vitória às custas de metralhadoras, passamos a conhecer em detalhes a corte e a intimidade do "Leão de Gaza" como era chamado Ngungunyane. Mia Couto surpreende ao controlar com muita facilidade o estilo do romance histórico, sem perder o seu dom da imaginação e poesia. Um livro fundamental para entender o processo de "colonização" da África.
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