sábado, novembro 19, 2016

Sobre a beleza


Em "História da Beleza", Umberto Eco nos ensina que o conceito de beleza está longe de ser uma escolha individual, mas sim o resultado da influência dos padrões culturais e sociais de uma determinada época, sendo possivelmente uma ideia que pode ser afetada pela razão e conhecimento. Sendo assim, consideramos belas tanto as formas de representação do classicismo grego quanto as distorções da arte moderna não figurativa. Maior exemplo desta indefinição é o corpo da mulher que desafia os padrões de composição, forma e simetria ao longo do tempo. O que se definiu como belo mudou radicalmente da antiguidade à idade média, da renascença à era vitoriana e do início do século XX até as exigências estéticas do nosso tempo. Afinal, é verdadeiro o ditado que afirma que a beleza está nos olhos de quem vê? Certos estudos comprovam que sim, sendo as nossas preferências mais afetadas pelo ambiente e experiências individuais do que por uma herança genética.

A beleza é um conceito tão subjetivo que pode estar presente em locais improváveis e inacessíveis como na foto que abre esta postagem e lembra muito uma aquarela abstrata ou impressionista mas é, na verdade, uma imagem em cor natural do florescer de fitoplânctons, no mar de Barents, no Ártico, registrada pelo satélite Sentinel-2A, da ESA (Agência Espacial Europeia). O fitoplâncton é o tipo de vida mais abundante encontrado no oceano, são plantas marinhas microscópicas que flutuam sobre a superfície do mar. Por sinal, as fotos do nosso pequeno planeta visto do espaço, no site da ESA ou da NASA, são sempre de uma rara beleza e podem ser consideradas como uma espécie de arte muito particular. Não é estranho que arte e ciência, duas áreas praticamente antagônicas por definição, possam se aproximar para demonstrar em uma abordagem mais ampla o que possa ser um sentimento de satisfação estética, ou simplesmente beleza?

Na literatura, a beleza é um assunto recorrente, mas raramente exerce uma função de protagonismo; exceção para o romance "Sobre a Beleza" de Zadie Smith (ler aqui resenha do Mundo de K) que tem como referência o ambiente das ideias acadêmicas, artigos e palestras. A autora apresenta em uma trama muito bem-humorada uma visão de como a competição e a vaidade podem influir no debate ideológico entre dois professores rivais, Howard Belsey e Montague Kipps. No livro de Zadie Smith, os quadros de Rembrandt são o ponto de partida para esta "manipulação" do conceito de beleza que acaba envolvendo os professores, suas famílias e até os alunos em um tema mais complexo e abrangente, o problema de exclusão social dos imigrantes haitianos e da população negra de baixa renda em Wellington, cidade universitária fictícia, próxima a Boston na Costa Leste norte-americana.

O homem sempre buscou na filosofia a explicação para muitos conceitos subjetivos e não poderia ser diferente com o ideal de beleza. A Estética é o ramo da filosofia que tem por objetivo o estudo da natureza da beleza e dos fundamentos da arte. Platão, por exemplo, dissociava o belo do mundo sensível, acreditando que "a beleza absoluta é o brilho ou esplendor da verdade". Já Kant pensava de forma oposta, para ele o belo estaria ligado à sensação de prazer, desprovido do sentido de conhecimento e portanto não vinculado à realidade de um objeto ou fenômeno, o prazer viria apenas das representações sensivelmente apreendidas. Hegel acreditava que o belo é algo espiritual por resultar do espírito humano e manifestar-se em obras duráveis, inspiradas por um ideal e realizadas com base na imaginação do artista. De acordo com a visão de Hegel, só seria belo aquilo que possui expressão artística.

Muitas vezes é difícil obter concordância sobre o "valor" da obra de arte, seja em termos de aceitação pelo público ou até mesmo na avaliação da crítica especializada. Em alguns casos o trabalho é prontamente elevado ao patamar de obra-prima, mas em outros é depreciado como algo falso e inútil. É muito comum que determinadas obras de arte sejam rejeitadas em seu tempo para serem aclamadas no futuro como expoentes do espírito humano. O ideal de beleza, seja natural ou artístico é mesmo incompreensível, depende da sensibilidade individual, contexto social e histórico, herança cultural, entre tantas outras variáveis e certamente continuará desafiando o nosso entendimento, assim como fazendo a nossa vida melhor. Afinal, como escreveu Dostoiévski: "A beleza salvará o mundo".
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