segunda-feira, novembro 21, 2016

Três poemas de Julio Cortázar


Três poemas de Julio Cortázar do livro póstumo "Papéis Inesperados" (Editora Civilização Brasileira - 487 páginas - Publicação 2010 - Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht - Compilação de Aurora Bernárdez, viúva do escritor, e Carles Álvarez Garriga) - Ler aqui resenha do Mundo de K.

No primeiro poema, "A mosca", um exemplo da metafísica bem-humorada de Cortázar. No segundo, "Meu sofrimento dobrado...", o eco de uma canção de amor onde a dor e a solidão são a matéria-prima do autor. Finalmente, em "O que eu gosto do teu corpo...", a palavra é o ponto final de um poema sobre a paixão.

A mosca

Vou ter que matar-te de novo.
Já te matei tantas vezes, em Casablanca, em Lima,
em Cristiânia,
em Montparnasse, numa fazenda na província de Lobos,
no bordel, na cozinha, em cima de um pente,
no escritório, neste travesseiro
vou ter que matar-te de novo,
eu, com a minha única vida.

Meu sofrimento dobrado...

E também não estar triste,
não crescer com as fontes, não se dobrar nos salgueiros.
Larga é a luz para dois olhos, e a dor dança
nos peitos que aceitam sem fraqueza seus frios escarpins.
E não chamar-te de distante nem perdida
para não dar razão ao mar que te retém.
E elogiar-te na mais perfeita solidão
na hora em que teu nome é o primeiro lume em minha janela.

                                                                   Benditos sejam os meus olhos 
                                                                           por terem olhado tão alto.

O que eu gosto do teu corpo...

O que eu gosto do teu corpo é o sexo.
O que eu gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.

Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
>