quinta-feira, dezembro 08, 2016

Poemas de Paul Éluard

Movimento Surrealista, da esquerda para a direita: Tristan Tzara, Paul Éluard, André Breton,  Hans Arp, Salvador Dalí, Yves Tanguy, Max Ernst,  René Crevel e Man Ray.
Esta foto de 1930, em Paris, bem poderia servir como argumento para muitos livros ou roteiros e dá uma ideia da concentração criativa do movimento surrealista, formado em torno desse bando de loucos nos campos da literatura, pintura e fotografia. Um movimento de rara intensidade na história da arte. Podemos citar mais alguns importantes expoentes do movimento, não presentes na imagem, tais como: Antonin Artaud no teatro, Luis Buñuel no cinema e René Magritte nas artes plásticas.

A obra poética de Paul Éluard (1895-1952), o segundo louco da esquerda para a direita, é extensa e apresenta não apenas inspiração de ordem intimista e lírica, mas também de engajamento político, principalmente quando atuou como membro do Partido Comunista francês e viveu na clandestinidade, participando na Resistência contra o nazismo. Na verdade, a obra de Éluard ultrapassou, em muito, os limites e exageros do movimento surrealista da época.

Os dois exemplos que selecionei abaixo fazem parte do livro "Poemas", seleção e tradução de José Paulo Paes, publicado pela editora Guanabara em 1988 e infelizmente já esgotado.

Seus olhos sempre puros
(Leurs Yeux Toujours Purs)

Dias de lentidão, dias de chuva, 
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas, 
Dias de pálpebras fechadas ao horizonte dos mares, 
De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro. 

Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas 
E as flores, meu espírito é desnudo feito o amor, 
A aurora que ele esquece o faz baixar a cabeça 
E contemplar seu próprio corpo obediente e vão. 

Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo, 
Deuses de prata que tinham safiras nas mãos, 
Deuses verdadeiros, pássaros na terra 
E na água, vi-os. 

Suas asas são as minhas, nada mais existe 
Senão o seu vôo a sacudir minha miséria. 
Seu vôo de estrela e luz, Seu vôo de terra, seu vôo de pedra 
Sobre as vagas de suas asas. 

Meu pensamento sustido pela vida e pela morte.

Publicado originalmente em "Capitale de la douleur" (1926)

Coragem

(Courage)

Paris tem frio Paris tem fome

Paris já não come castanhas pelas ruas
Paris vestiu-se com velhas roupas de velha
Paris de pé sem ar dormindo no metrô
Desventura ainda maior é imposta aos pobres
E a sabedoria e a loucura
De Paris infeliz
É o ar puro é o fogo
A beleza a bondade enorme
De seus operários com fome
Paris não grites por socorro
Estás viva de uma vida sem igual
E por trás da nudez
De tua magra palidez
Tudo o que é humano se revela em teus olhos
Paris minha cidade
Fina como uma agulha forte como uma espada
Ingênua e sábia
Tu não suportas a injustiça
Para ti é a única desordem
Tu vais te libertar Paris
Paris tremeluzente como estrela
Nossa esperança sobrevive
Tu vais te libertar da fadiga e da lama
Coragem irmãos, coragem
Nós que não temos capacetes
Nem mosquetes nem tapetes nem banquetes
Eis que um raio se acende em nossas veias
A nossa luz nos volta
Os melhores de nós por nós morreram
E o seu sangue reencontra o nosso coração
E é manhã outra vez a manhã de Paris
Ponta de libertação
O espaço da primavera que nasce
A força idiota está por baixo
Estes escravos nossos inimigos
Se refletirem
Se forem capazes de refletir
Vão-se insurgir.

Publicado originalmente em "Au rendez-vous allemand" (1942-1945)


Já o poema abaixo foi incluído na antologia "Algumas das palavras", tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, publicação da editora portuguesa Dom Quixote em 1977 (segunda edição bilingue).

A curva dos teus olhos
(La courbe de tes yeux)

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito 
É uma dança de roda e de doçura. 
Berço noturno e auréola do tempo, 
Se já não sei tudo o que vivi 
É que os teus olhos não me viram sempre. 

Folhas do dia e musgos do orvalho, 
Hastes de brisas, sorrisos de perfume, 
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro, 
Barcos de céu e barcos do mar, 
Caçadores dos sons e nascentes das cores. 

Perfume esparso de um manancial de auroras  
Abandonado sobre a palha dos astros, 
Como o dia depende da inocência 
O mundo inteiro depende dos teus olhos 
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Publicado originalmente em "Capitale de la douleur" (1926)
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