terça-feira, dezembro 13, 2016

Sobre o livro das mil e uma noites

Scheherazade, pintura de Leon Bakst (1866 - 1924)
Um clássico da literatura mundial, "O livro das mil e uma noites" compreende uma variedade de contos populares e fábulas de cunho moral do Oriente Médio e do Sul da Ásia, compiladas em língua árabe desde o século IX e reunidos em uma única história, que é narrada por uma das mais fascinantes protagonistas já imaginadas, a inteligente Scheherazade. Esta postagem utilizou como base as minhas notas sobre um dos módulos do curso "Masterpieces of World Literature" de David Damrosch e Martin Puchner, professores da Universidade de Harvard, disponível online. Este e outros cursos similares, e também de outras áreas, podem ser acessados gratuitamente neste link.

Como sabemos, Scheherazade devia contar novas histórias todas as noites, interrompendo cada conto ao amanhecer para continuá-lo na noite seguinte, o que a manteria viva ao longo de muito tempo. No entanto, ela tinha outro objetivo mais importante, porque caso ela simplesmente mantivesse a atenção do rei noite após noite, ela ainda ficaria presa para sempre. Assim, havia uma segunda tarefa que consistia em reeducar o rei que havia ficado louco após ter descoberto as infidelidades de sua esposa. Ele havia jurado matar todas as mulheres depois de passar apenas uma noite com cada uma. Isso, é claro, levaria o reino à destruição. Logo, Scheherazade precisou salvar não só a si mesma e suas companheiras mulheres, mas realmente, todo o reino, ensinando ao rei como ser rei novamente.

Desta forma, com a loucura do rei, havia uma crise política sem precedentes que precisava ser resolvida e isto foi conseguido através do lento processo de contar histórias, sempre presenciadas por sua irmã mais jovem Dunyazade, histórias que, no final, giravam em torno de decisões de reis justos e boa governança. Um personagem importante nesses contos ou fábulas era o famoso Califa de Bagdá, Harun al-Rashid, que caracterizava o núcleo árabe da coleção. Outros contos vêm de outras partes do mundo como a Pérsia e a Índia. Uma informação importante sobre Harun al-Rashid é que ele criou a primeira fábrica de papel no mundo árabe, originalmente importado da China através da Estrada da Seda.

O uso do papel transformou a literatura no mundo árabe porque era muito mais fácil de ser produzido do que o papiro ou o pergaminho. Portanto, reduziu o custo de produção da literatura e isto foi perfeito para o "livro das mil e uma noites" que não era considerado como alta literatura e sim uma forma mais popular, orientada para as pessoas da cidade e comerciantes, normalmente em destaque em suas páginas. Mesmo protagonizando alguns reis característicos como Harun al-Rashid, normalmente as fábulas se referiam a pessoas comuns. Este tipo de literatura conseguiu prosperar apenas quando o custo de produção e, portanto, as barreiras de acesso, foram reduzidas com a introdução do papel.

No ocidente, a primeira importante tradução do "livro das mil e uma noites" foi de Antoine Galland (1646-1715), orientalista e arqueólogo francês. Sua versão foi publicada em doze volumes entre 1704 e 1717. O criativo Antoine Galland foi mais do que um tradutor, tendo incluído em sua versão alguns dos contos mais famosos. Por exemplo, não há manuscritos árabes de Aladim e Ali Baba. Isso levou alguns estudiosos a concluir que Galland os inventou pessoalmente e as versões em árabe são apenas versões posteriores de seu original francês. Na verdade, a fonte de Galland, segundo o próprio, foi um contador de histórias chamado Hanna Diab, um maronita de Alepo, que narrou-lhe contos como o de "Aladim e a Lâmpada Maravilhosa" e o de "Ali Babá e os Quarenta Ladrões" que não constavam do conjunto original. O fato é que as histórias ganharam popularidade em toda a Europa, gerando outras traduções e adaptações.

A primeira tradução para o inglês do "livro das mil e uma noites" foi publicada em 1840, em três volumes, por Edward William Lane (1801-1876), uma versão claramente censurada pelo próprio tradutor que compartilhava a visão usual da "moralidade vitoriana" do século XIX. Esta versão era, portanto mais centrada nas práticas culturais e questões sociais. Posteriormente, a versão de Sir Richard Francis Burton (1821-1890), foi bem mais realista com a inserção de elementos eróticos e práticas e costumes sexuais do oriente, sempre uma fixação para os europeus (ler uma versão disponível aqui).

Um fato interessante a ser destacado sobre a questão de Scheherazade como heroína feminista, em uma sociedade tipicamente patriarcal, é que ela tem sido proclamada por gerações, mesmo durante séculos, como uma salvadora das mulheres, o que não deixa de ser uma avaliação justa de seu valor. Mas curiosamente, o que ela faz é retornar o mundo para o seu status quo. Ela não é revolucionária no sentido das feministas tradicionais da história, o que ela faz realmente é utilizar os seus dons narrativos como uma espécie de terapia para o rei. Ela o salva de sua própria loucura.

Contudo, talvez o ponto mais interessante sobre o "livro das mil e uma noites" é que o mesmo não seja considerado até hoje como alta literatura no próprio mundo árabe. De fato, os estudiosos queixam-se do que eles chamam de "Síndrome das mil e uma noites", com o significado da sobre-representação e valorização do livro e suas diversas adaptações no mundo ocidental (inclusive no cinema) sobre a verdadeira cultura árabe. Esta valorização tende a somente reconhecer os trabalhos literários que representem esta tendência ou preferência pelo fantástico ou sobrenatural.
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