Escrever bem não é suficiente

Muito já se discutiu sobre a questão da universalidade em obras literárias e o fato, aparentemente incompatível, destas obras se basearem em um espaço local de caráter regional ou folclórico. Ocorre então que, quanto mais restrito e intimista o foco da narrativa, mais abrangente é a representação humana.

Eça de Queirós, no final de sua vida e já morando em Paris por vários anos, escolheu para seus últimos romances temas ligados à história de Portugal. Na “Ilustre Casa de Ramires” a decadência moral da família Ramires é comparada ao momento histórico português no final do século XIX, onde após séculos de expansão marítima e conquistas, o país não conseguia manter a glória de épocas passadas. Para estabelecer esta comparação, o autor utilizou os conflitos éticos da personagem principal e sua dificuldade em adaptar a tradição fidalga dos antepassados a uma sociedade moderna e sem valores.

Esta representação universal parece também, na maioria dos clássicos, não ser afetada pelo tempo. Por exemplo, no caso de Dom Quixote de Cervantes, mesmo após quatrocentos anos de sua publicação, a história ainda é representativa e fiel à essência do homem. Podemos concluir que esta essência permanece exatamente a mesma, apesar da anestesia atual provocada pelo excesso de informação e falta de formação.

Segundo o crítico Harold Bloom "Dom Quixote continua sendo o trabalho de ficção em prosa mais avançado que existe." Recomendo uma visita à página do Instituto Cervantes onde são apresentadas as diversas traduções de Dom Quixote (a imagem que abre este texto é de uma edição em braille).

Logo, fica estabelecido então um primeiro critério básico para determinação do valor literário da obra, qual seja a sua eficácia na representatividade do homem, de forma independente da sua origem ou época.

Outra colocação importante na identificação de um texto clássico (não confundir a expressão “clássico” com obra antiga) é o conceito do grau de verdade que está inserido no texto. Entendo que esta conceituação é ainda mais relevante, pois exige exposição e coragem do autor. Textos verdadeiros são sempre bons, mesmo que carentes de uma técnica mais apurada.

Como comentei recentemente na página do Polzonoff e também com minha amiga Carol, para escrever bem é preciso necessariamente ter algo verdadeiro para dizer, algo que pode ser fruto da experiência ou da sensibilidade, mas que deve provocar a identificação e aceitação desta verdade no leitor (não necessariamente concordância). Este objetivo pode ser atingido mesmo que o texto não siga os padrões formais de estilo. Neste caso, pode-se até mesmo criar um novo estilo.

Os livros de Jack Kerouac, expoente da literatura beatnik, principalmente em “On the road”, podem ser considerados mal escritos do ponto de vista convencional, mas seus textos baseados em uma narrativa coloquial, muito próxima da linguagem falada, são sempre saturados de Jazz, drogas, álcool e outros ruídos e sensações do universo americano, suas histórias são praticamente confessionais. Travessias de costa a costa nos EUA, onde o mais importante não é a chegada, mas a própria viagem. Tudo isto é vida e o que mais é a literatura, em última análise, além do que a legítima representação da vida.

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