Ian McEwan - Sábado

Ian McEwan - Sábado - Editora Companhia das Letras - 336 páginas - Publicação 2006 - Tradução de Rubens Figueiredo.

Este romance de Ian McEwan, lançado originalmente em 2005, é envolvente e bem construído, mas enfrenta um grande problema: é também o sucessor da obra-prima "Reparação" de 2001, já considerado pela crítica como um dos melhores trabalhos de ficção da literatura inglesa contemporânea. O tempo decorrido entre os dois romances, gerou muita expectativa em torno do lançamento de "Sábado" e alguma frustração pela comparação de duas composições totalmente distintas em estilo e conteúdo.

Comparações a parte, "Sábado" tem alguns pontos fortes a se destacar. Talvez seja o primeiro trabalho de literatura abordando considerações sobre a nova ordem de pânico mundial criada após os atentados de 11 de setembro, especialmente na sociedade inglesa, alvo frequente de terroristas, devido à tradicional política de alinhamento com os EUA. Adicionalmente é o resultado de uma intensa pesquisa médica que proporcionou uma narrativa convincente e descrições detalhadas do trabalho do protagonista, o neurocirurgião Henry Perowne. Finalmente, somos mais uma vez presenteados pela fina erudição de McEwan, principalmente no campo da música, seja clássica ou popular.

Sábado, 15 de fevereiro de 2003, um dia difícil na vida de Henry Perowne que presenciará eventos marcantes em Londres devido à maior manifestação popular já vista na cidade, com 1 milhão de pessoas nas ruas protestando contra a invasão do Iraque e ao mesmo tempo sofrerá as consequências de um acidente banal de trânsito que acabará colocando em perigo a sua vida e a integridade da própria família.

Perowne e sua esposa Rosalind, uma conceituada advogada, são totalmente dedicados ao trabalho e a suas respectivas carreiras. Ambos conseguiram conquistar uma posição social invejável e uma vida luxuosa como McEwan bem descreve na seguinte passagem que revela o sentimento de culpa de Perowne em relação ao seu carro: "Um Mercedes cor prata S500, com estofamento de cor creme - e ele não se encabula mais com isso. Não que goste disso - é apenas um componente sensual daquilo que ele considera como o seu quinhão supergeneroso dos bens do mundo. Se ele não o possuísse, diz a si mesmo, outra pessoa o possuiria."

O casal, apesar da dedicação ao trabalho, conseguiu criar dois filhos extremamente talentosos, Theo que é um guitarrista no estilo da escola de blues britânica seguindo os passos de Alexis Korner, John Mayall e Eric Clapton e a filha caçula Daisy uma premiada poetisa que está editando seu primeiro livro. Uma passagem marcante do livro (pelo menos me tocou profundamente) é a seguinte auto-análise de Perowne em relação ao talento do filho: "A guitarra de Theo o fere porque também comporta uma repreensão, a lembrança de uma insatisfação reprimida em sua própria vida, do elemento ausente. Essa sensação pode crescer quando termina uma parte do concerto e o neurocirurgião despede-se carinhosamente de Theo e de seus amigos e, ao sair para a calçada, resolve ir a pé para casa e refletir. Não existe nada em sua vida que contenha aquela inventividade, aquele estilo de ser livre. A música fala a uma aspiração ou uma frustração que não se manifestou, a sensação de que recusou a si mesmo um caminho livre, a vida do coração celebrada nas canções. Tem de haver mais na vida do que simplesmente salvar vidas."

O pano de fundo de toda a narrativa é o momento histórico decorrente do debate em torno da invasão ou não do Iraque. O questionamento da legitimidade de se invadir um país para depor um tirano como Saddam com base nos argumentos, hoje sabidamente falhos, de um possível arsenal de armas químicas e da ligação do Iraque com a organização terrorista Al-Qaeda e Bin Laden. O sentimento de insegurança da população londrina é compartilhado por Perowne que descobre que todo o seu mundo de certezas pode se tornar repentinamente inseguro e sem sentido.

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