Clarice, - Benjamin Moser

Clarice, - Benjamin Moser - Editora Cosac Naify - 647 páginas - Publicação 2009 - Tradução de José Geraldo Couto

Um livro daqueles em que ficamos com pena de chegarmos ao final é a melhor definição da primorosa biografia de Clarice Lispector escrita pelo americano Benjamin Moser e publicada nos Estados Unidos em agosto de 2009 com o título de "Why This World: A Biography of Clarice Lispector", não é a toa que foi incluída entre os 100 livros Notáveis de 2009 pelo New York Times Book Review (ver relação completa aqui). Segundo Moser a própria Clarice escreveu "a maior autobiografia espiritual do século XX", deixando pistas que o ajudaram a tentar decifrar parte dos enigmas de um dos maiores mitos da literatura brasileira.

O cuidado com esta edição começa no acabamento gráfico já tradicional da Editora Cosac Naify que utilizou na capa uma foto de 1961 de Claudia Andujar que lembra este dia especial no blog da Editora: "Fui à casa de Clarice Lispector para fotografá-la a pedido da revista Claudia, que naquele ano de 1961 preparava uma reportagem sobre a escritora. Pouco me lembro daquele dia perdido no tempo, mas há detalhes que guardo para sempre. Ninguém da revista me acompanhava e fui recebida com muita simpatia por aquela mulher linda, vestida com simplicidade e elegância. Conversamos pouco. Quis deixá-la à vontade para a foto, e perguntei como gostaria de se posicionar. Se não me engano, a ideia de sentar diante da máquina de escrever e começar a trabalhar em algum texto foi de Clarice. E então ela se deixou absorver pelo ato de escrever, completamente entregue, sem quase notar minha presença”.

O que mais me chamou a atenção neste livro foi o respeito do autor por Clarice Lispector e a forma como narrou todos os fatos marcantes de sua vida com base nas próprias citações dos livros de Clarice, além da farta utilização de dados biográficos, depoimentos e documentos inéditos. Muitas passagens da vida de Clarice que já se transformaram em lenda são, portanto, esclarecidas e enquadradas na realidade histórica do país e da vida da autora, como esclarece Benjamin Moser na Introdução: "O que torna tão peculiar essa teia de contradições é que Clarice Lispector não é uma figura nebulosa, conhecida a partir de fragmentos de antigos papiros. Ela morreu há pouco mais de trinta anos. Muitas das pessoas que a conheceram bem ainda estão vivas. Foi alguém de destaque praticamente desde a adolescência, sua vida foi documentada à exaustão na imprensa, e deixou uma extensa correspondência. Ainda assim, poucos grandes artistas modernos são, em essência, tão pouco familiares quanto ela (...)".

Muito já se escreveu sobre Clarice que "era parecida com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf", como destacou o tradutor Gregory Rabassa, ou que "parecia uma loba" como disse Ferreira Gullar, mas talvez um das melhores definições seja da escritora francesa Hélène Cixous quando declarou que "Clarice Lispector era o que Kafka teria sido se fosse mulher, ou se Rilke fosse uma judia brasileira nascida na Ucrânia. Se Rimbaud fosse mãe, se tivesse chegado aos cinquenta. Se Heidegger deixasse de ser alemão". A conclusão mais bonita é mesmo do poeta Carlos Drummond de Andrade: "Clarice veio de um mistério, partiu para outro".

A verdade é que Clarice Lispector ajudou a criar a sua fama de misteriosa, feiticeira ou louca com declarações que já fazem parte da história da literatura como: "Sou tão misteriosa que não me entendo" ou "viver não é vivível". Ela definiu bem a sua missão de escritora em uma de suas últimas anotações: "Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida".

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