Fernando Pessoa - Livro do Desassossego

PoesiaFernando Pessoa - Livro do Desassossego - Editora Companhia das Letras - 534 páginas - Publicação 2003 - Organização de Ricardo Zenith

Um livro muito difícil de se classificar como prosa ou poesia, romance ou diário, filosofia ou fragmentos, quase tão complexo como a personalidade de Fernando Pessoa (1888 - 1935) que utilizou, neste caso, o heterônimo Bernardo Soares, definido como um "semiheterônimo" pelo próprio Pessoa "porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela". Na verdade, o guarda-livros Bernardo Soares não tem o mesmo brilhantismo e humor de outros famosos heterônimos como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos ou Ricardo Reis e, no entanto, talvez seja o que melhor traduziu o sentimento de melancolia do próprio Pessoa.

O organizador desta edição, Ricardo Zenith, definiu o Livro do Desassossego da seguinte forma: "O que temos aqui não é um livro mas a sua subversão e negação, o livro em potência, o livro em plena ruína, o livro-sonho, o livro-desespero, o antilivro, além de qualquer literatura". Talvez a melhor definição seja de Fernando Pessoa no trecho 12: "Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem fatos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer".

Mais bonito ainda é o trecho 116: "Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso".

Outra passagem que traduz o destino de Pessoa no trecho 103: "Cultivo o ódio à ação como uma flor de estufa. Gabo-me para comigo da minha dissidência da vida". E a sua opção pela ficção no trecho 415: "As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais. O meu mundo imaginário foi sempre o único mundo verdadeiro para mim. Nunca tive amores tão reais, tão cheios de verve, de sangue e de vida como os que tive com figuras que eu próprio criei. Que loucura! Tenho saudades deles porque, como os outros, passam...".

Difícil escolher algumas poucas citações para esta postagem, prefiro indicar o site do Domínio Público que disponibilizou o Livro do Desassossego (versão da editora brasiliense) para consulta, basta clicar aqui.
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