Roberto Bolaño - 2666

Literatura espanhola contemporâneaRoberto Bolaño - 2666 - Editora Companhia das Letras - 852 páginas - Publicação 2010 - Tradução de Eduardo Brandão

Publicado mais de um ano depois da morte de Roberto Bolaño (1953-2003), na Espanha em 2004, este monumental romance foi rapidamente promovido à categoria cult após o lançamento no mercado dos Estados Unidos em 2008 o que transformou o autor chileno (e que todos achavam ser mexicano até então) em um novo mito literário, comparado somente aos escritores da geração beat (ver resenhas do New York Times, Guardian e Independent). Vencedor do National Book Critics Circle Award nos Estados Unidos e eleito o livro do ano pela "Time Magazine", Roberto Bolaño é hoje o autor mais prestigiado da literatura latino-americana, um rótulo que não parece combinar muito com o estilo globalizado de Bolaño.

Este romance tem como base para a sua estrutura narrativa principal os assassinatos violentos de mulheres ocorridos em Ciudad Juárez no México, cidade localizada no deserto de Sonora e próxima à fronteira com os EUA, mas resumir assim o ambicioso projeto literário de Bolaño seria uma simplificação e injustiça com a complexidade e abrangência temática deste livro. Na verdade, Bolaño ao sentir que a morte se aproximava, teria pedido ao editor Jorge Herralde que publicasse a obra em cinco volumes independentes, por entender que assim obteria um retorno financeiro maior para a mulher e os dois filhos. No entanto, o editor e a família acabaram contrariando a sua vontade e publicando o romance em um volume único o que hoje parece ter sido a decisão mais acertada. Sendo assim, o romance é dividido em cinco capítulos: A parte dos críticos, A parte de Amalfitano, A parte de Fate, A parte dos crimes e A parte de Archimboldi.

A parte dos críticos - Quatro intelectuais e críticos literários: um francês, um espanhol, um italiano e uma inglesa, especialistas em literatura alemã contemporânea, mais especificamente obcecados pelo misterioso e fictício autor Benno von Archimboldi, um escritor alemão recluso do qual não se conhecem fotos ou dados biográficos, resolvem seguir uma pista que os leva até a cidade de Santa Teresa, no México (ficcionalização de Ciudad Juárez). Na violenta cidade mexicana, entram em contato com uma realidade local bem diferente da que estavam acostumados em suas respectivas capitais européias e as relações entre eles são influenciadas pelo novo ambiente. O tema dos assassinatos é apenas introduzido de passagem neste capítulo.

A parte de Amalfitano - Este capítulo, o mais curto do livro, é dedicado aos problemas existenciais do melancólico professor de filosofia Oscar Amalfitano que relembra a sua relação na Espanha com a ex-mulher Lola que o abandonou por um poeta. Amalfitano sofre o início de um processo de loucura quando começa a escutar vozes e agir estranhamente. Ele teme pela segurança de sua filha Rosa devido aos assassinatos em Santa Teresa.
A parte de Fate - O repórter negro americano Oscar Fate, após o falecimento de sua mãe, vem cobrir uma luta de boxe em Santa Teresa e acaba se envolvendo com o narcotráfico local, em um clima de literatura noir e tendo um caso com Rosa. Bolaño, como em todos os capítulos, costura narrativas secundárias que podem se conclusivas ou não, histórias se desdobrando em outras histórias.

A parte dos crimes - É o capítulo mais violento do livro, com descrições dos cadáveres de mulheres violentadas que são abandonados nos enormes terrenos baldios e lixões clandestinos próximos às inúmeras fábricas maquiladoras da região. Chama a atenção o nome do maior desses lixões: El Chile, homenagem estranha ao país natal do autor. As investigações não conseguem ser conclusivas.

A parte de Archimboldi - Neste capítulo final, o mais perfeito do ponto de vista literário no meu entendimento, o mistério sobre a biografia de Benno von Archimboldi é desvendado e Bolaño, com a sua cultura invejável, nos leva a uma convincente história que tem início no front oriental da Segunda Guerra até revelar os motivos que levam Archimboldi a Santa Teresa.

Em todo o romance não é esclarecido o motivo do enigmático número 2666, mas nesta mistura de narrativa policial e filosofia, o leitor entre surpreso e fascinado, não consegue abandonar a lenta construção das infinitas espirais formadas pelas histórias que Bolaño vai desenvolvendo no decorrer do livro e que ele sabe contar extremamente bem, podem ter certeza.
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