J.M. Coetzee - Verão

LiteraturaJ.M. Coetzee - Verão: Cenas da Vida na Província - Editora Companhia das Letras - 275 páginas - Publicação 2010 - Tradução de José Rubens Siqueira.

Muitos autores contemporâneos já lançaram autobiografias onde não conseguimos discernir realidade e ficção, incluindo o português António Lobo Antunes e a brasileira Tatiana Salem Levy para citar apenas dois exemplos, até aí nada de novo no ramo da literatura, existe até um termo cunhado para isto: autoficção. No entanto, John Maxwell Coetzee, original como sempre, está um passo além neste livro, última parte da trilogia iniciada com Infância e Juventude, não apenas escrevendo na terceira pessoa, mas também abordando a sua própria biografia do ponto de vista existencial e não de suas obras, sendo que desta narrativa emerge não o grande escritor, premiado com o Nobel de literatura, mas sim um ser humano com muitas limitações e dificuldades de relacionamento, seja com a própria família ou na área afetiva.

Coetzee utiliza o recurso de entrevistas feitas pelo personagem-biógrafo Vincent e trechos autobiográficos, que abrem e encerram o livro, pretensamente extraídos de cadernos do próprio autor, colocado como "falecido" em 2006, cobrindo o período de repressão política do apartheid na África do Sul dos anos 70 e que marca o retorno de Coetzee dos Estados Unidos, anterior à sua consagração como escritor. As entrevistas são feitas com cinco pessoas que tiveram um relacionamento próximo com o autor: Julia, sua vizinha na Cidade do Cabo, Margot sua prima com quem conviveu desde a infância, a brasileira Adriana, dançarina e mãe de uma de suas alunas e dois colegas professores, Martin e Sophie.

Apesar da oportunidade de uma abordagem múltipla que esta escolha narrativa permite, Coetzee se define através de todos os seus personagens, como um ser humano sem interesse, assexuado e de difícil convivência. Segundo Julia, com quem ele teve um caso: "John não era feito para o amor, não era constituído assim, não era constituído para se encaixar ou ser encaixado. Era como uma esfera. Como uma bola de vidro. Não havia como se conectar com ele." ou ainda nas palavras da brasileira Adriana: "Ele é um homem fraco e un homem fraco é pior do que um homem ruim. Um homem fraco não sabe onde parar. Um homem fraco é incapaz diante dos próprios impulsos, vai onde eles mandarem."

Mas é de fato surpreendente quando o próprio Coetzee, apenas um coadjuvante nesta narrativa, faz coro com os seus personagens no seguinte trecho de seus cadernos onde comenta em terceira pessoa a relação com o pai: "No departamento risadas, ele é o último da classe. Um sujeito melancólico: deve ser assim que o mundo o vê, se é que já o tenha visto alguma vez. Um sujeito melancólico, um desmancha-prazeres; um chato de galochas.". É impossível saber o que temos de real ou de ficção neste romance, mas isso realmente não é importante quando temos um texto de Coetzee em mãos.
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