Nicolau Maquiavel - O Príncipe

Selo Penguin CompanhiaNicolau Maquiavel - O Príncipe - Editora Companhia das Letras - Selo Penguin Companhia - 176 páginas - Tradução do italiano de Maurício Santana Dias - Prefácio de Fernando Henrique Cardoso.

O selo Penguin Companhia conseguiu uma ótima estreia com este clássico de 500 anos da filosofia que inaugurou a ciência política moderna. Os cuidados com a tradução direta do italiano, a preservação das notas e Introdução da edição original Penguin, Cronologia, Glossário, indicações para leituras complementares, qualidade do projeto gráfico, além do prefácio de Fernando Henrique Cardoso (que afinal escreve bem, não podemos negar) valorizaram muito esta edição que se afasta do caça-níqueis editorial representado pelo lançamento de clássicos de bolso de obras em domínio público, com tratamento nem sempre compatível com os originais. Para ler um trecho desta edição disponibilizado pela editora em pdf, clique aqui.

Nicolau Maquiavel (1469-1527) com a sua visão talvez muito realista ou pessimista do cenário político de seu tempo resumiu neste "manual para soberanos" os princípios básicos para governar e manter principados, tendo dedicado esta obra em 1518 a Lourenço de Médici (imagem da capa desta edição), depois do seu banimento da sociedade de Florença. Selecionei abaixo algumas passagens deste livro, polêmicas é claro, mas que permaneceram ao longo do tempo como o retrato de uma época, ou seriam ainda hoje aplicáveis? Bom tema para debate.

"A crueldade bem empregada - se é lícito falar bem do mal - é aquela que se faz de uma só vez, por necessidade de segurança; depois não se deve perseverar nela, mas convertê-la no máximo de benefício para os súditos (...) Donde se nota que, ao tomar um Estado, o usurpador deve ponderar que violências precisam ser infligidas e praticá-las todas de uma vez, para não ter que renová-las a cada dia e assim poder, não as renovando, tranquilizar os homens e seduzi-los com benefícios." (capítulo VIII - "Daqueles que, por atos criminosos, chegaram ao principado").

"Em toda cidade se encontram essas duas tendências opostas: de uma parte, o povo não quer ser comandado nem oprimido pelos poderosos, de outra, os poderosos querem comandar e oprimir o povo; desses dois desejos antagônicos advém nas cidades uma das três consequências: principado, liberdade ou desordem." (capítulo IX - "Do principado civil").

"O príncipe deve inspirar temor de tal modo que, se não puder ser amado, ao menos evite atrair o ódio, já que é perfeitamente possível ser temido sem ser odiado. Isso só será viável se ele não cobiçar os bens de seus cidadãos e de seus súditos, bem como as mulheres destes. E, quando for imprescindível agir contra o sangue de alguém, que o faça por uma justificativa sólida e um motivo evidente. Mas o mais importante é abster-se de bens alheios, pois os homens se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio." (capítulo XVII - "Da crueldade e da piedade; e se é melhor ser amado que temido").

"Não quero deixar para trás um ponto importante, um erro do qual os príncipes dificilmente sabem defender-se, a menos que sejam muito prudentes e façam boas escolhas. Refiro-me aos aduladores, dos quais as cortes estão repletas: pois os homens se comprazem tanto com suas coisas, e de tal modo se enganam com elas, que com dificuldade se defendem dessa peste." (capítulo XXIII - "Como escapar aos aduladores").

"Tenho para mim que é melhor ser impetuoso que prudente: porque a fortuna é mulher, e é preciso, caso se queira mantê-la submissa, dobrá-la e forçá-la. De resto, vê-se que ela se deixa vencer mais por estes que por aqueles que procedem friamente; no entanto, na condição de mulher, ela é sempre amiga dos jovens, os quais são menos respeitosos, mais ferozes e, com maior audácia, a comandam." (Capítulo XXIV - "Por que os príncipes da Itália perderam seus reinos").
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