Philip Roth - Fantasma Sai de Cena

Literatura norte-americanaPhilip Roth - Fantasma Sai de Cena - Editora Companhia das Letras - 282 páginas - Publicação 2008 - Tradução de Paulo Henriques Britto

Philip Roth coloca em cena, mais uma vez (talvez pela última vez), o seu alter ego Nathan Zuckerman em um romance  que conta o sofrimento do personagem predileto do autor durante a triste e solitária passagem  pela velhice e suas complicações, um tema difícil e espinhoso no qual poucos escritores contemporâneos se arriscariam, talvez apenas Coetzee. Zuckerman retorna de seu auto-exílio no campo após onze anos para tentar um tratamento que minimize os efeitos constrangedores da incontinência urinária e impotência sexual, ambas decorrentes da remoção de próstata. A abertura do romance é um belo exemplo do estilo claro e direto de Philip Roth que mostra logo no início ao que veio:

"Fazia onze anos que eu não ia a Nova York. Com exceção da viagem a Boston para remover uma próstata cancerosa, eu passara aqueles onze anos praticamente sem sair de casa numa estrada rural nos montes Berkshire, e além disso pouco lia jornal ou ouvia o noticiário, desde o 11 de setembro, três anos antes; sem nenhuma sensação de perda - apenas, no início, uma espécie de ressecamento interior -, eu deixara de habitar não apenas o mundo maior mas também o momento presente. O impulso de estar nele e fazer parte dele, eu já havia matado muito antes."
Zuckerman, aos 71 anos, vai encontrar uma Nova York muito diferente de sua época. Manhattan em plena fase da reeleição de Bush em 2004, após a crise de 11 de setembro, é uma cidade tomada por telefones celulares e o pavor por novos atos terroristas. Ele caminha como um fantasma sem conseguir se adaptar e encontra Amy Bellette que conheceu quando era uma linda estudante de literatura e amante do seu ídolo literário, E. I. Lonoff - um escritor fictício morto há 30 anos e agora esquecido do público. O contraponto para o estado terminal de Zuckerman é representado pelo jovem e impetuoso Richard Kliman que pretende escrever uma biografia de Lonoff revelando pontos obscuros e comprometedores do escritor.

O quadro de personagens se completa com o jovem casal de escritores Billy e Jamie que pretende abandonar Nova York, trocando de residência com Zuckerman pelo período de um ano. Neste ponto, Roth que faz do seu personagem-escritor Zuckerman uma fonte de objetividade  e lucidez para os seus comentários sobre a vida e a sociedade americana (autobiográficos talvez),  faz também com que ele se apaixone por Jamie, quarenta anos mais nova. Obviamente que Zuckerman, prisioneiro do seu próprio corpo decadente, não consegue concretizar essa paixão de nenhuma forma possível, exceto pela ficção, passando a escrever diálogos imaginários que são intercalados com a narrativa.

A literatura parece ser  a única salvação para o debilitado Nathan Zuckerman que além de não poder controlar a própria bexiga e, o que é pior, o seu vigor sexual, começa a sofrer lapsos de memória que representam uma senilidade incontornável e que podem encerrar definitivamente a sua carreira como escritor. Philip Roth não tem mesmo pena de seus personagens, assim como a vida "real".
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