D.H. Lawrence - A Barca da Morte


D.H. Lawrence (1885 - 1930) será sempre lembrado pelo seu polêmico e censurado romance O Amante de Lady Chatterley, mas ele também escreveu poesias fabulosas. Destaquei para esta postagem The Ship of Death, um poema que, apesar de ter proporção e complexidade absolutamente incompatíveis com a ferramenta blog é irresistível demais para deixar passar. O texto é carregado de ressentimento pela incompreensão do autor com a chegada da própria morte e, estranhamente, acaba se tornando pelo andamento marcial, efeito cíclico e belas imagens líricas em uma espécie de oração.

A tradução para o português é de Rui Rosado, publicação da Hiena Editora (Portugal) de Março 1985 e tiragem de 1000 exemplares para uma coleção chamada de Águas, Luas Doidas que contou também com a traduçao de Le Bateau Ivre (O Barco Bêbado) de Arthur Rimbaud. Bem que podíamos lançar coleções assim no Brasil.

The Ship of Death



(D.H. Lawrence)


 

Now it is autumn and the falling fruit

and the long journey towards oblivion.

 

The apples falling like great drops of dew

to bruise themselves an exit from themselves.

 
5And it is time to go, to bid farewell

to one's own self, and find an exit

from the fallen self.

 

II 

 

Have you built your ship of death, O have you?

O build your ship of death, for you will need it.

 
10The grim frost is at hand, when the apples will fall

thick, almost thundrous, on the hardened earth.

 

And death is on the air like a smell of ashes!

Ah! can't you smell it?

 

And in the bruised body, the frightened soul
15finds itself shrinking, wincing from the cold

that blows upon it through the orifices.

 

III 

 

And can a man his own quietus make

with a bare bodkin?

 

With daggers, bodkins, bullets, man can make
20a bruise or break of exit for his life;

but is that a quietus, O tell me, is it quietus?

 

Surely not so! for how could murder, even self-murder

ever a quietus make?

 

IV 

 

O let us talk of quiet that we know,
25that we can know, the deep and lovely quiet

of a strong heart at peace!

 

How can we this, our own quietus, make?

 


 

Build then the ship of death, for you must take

the longest journey, to oblivion.

 
30And die the death, the long and painful death

that lies between the old self and the new.

 

Already our bodies are fallen, bruised, badly bruised,

already our souls are oozing through the exit

of the cruel bruise.

 
35Already the dark and endless ocean of the end

is washing in through the breaches of our wounds,

already the flood is upon us.

 

Oh build your ship of death, your little ark

and furnish it with food, with little cakes, and wine
40for the dark flight down oblivion.

 

VI 

 

Piecemeal the body dies, and the timid soul

has her footing washed away, as the dark flood rises.

 

We are dying, we are dying, we are all of us dying

and nothing will stay the death-flood rising within us
45and soon it will rise on the world, on the outside world.

 

We are dying, we are dying, piecemeal our bodies are dying

and our strength leaves us,

and our soul cowers naked in the dark rain over the flood,

cowering in the last branches of the tree of our life.

 

VII 

 
50We are dying, we are dying, so all we can do

is now to be willing to die, and to build the ship

of death to carry the soul on the longest journey.

 

A little ship, with oars and food

and little dishes, and all accoutrements
55fitting and ready for the departing soul.

 

Now launch the small ship, now as the body dies

and life departs, launch out, the fragile soul

in the fragile ship of courage, the ark of faith

with its store of food and little cooking pans
60and change of clothes,

upon the flood's black waste

upon the waters of the end

upon the sea of death, where still we sail

darkly, for we cannot steer, and have no port.

 
65There is no port, there is nowhere to go

only the deepening black darkening still

blacker upon the soundless, ungurgling flood

darkness at one with darkness, up and down

and sideways utterly dark, so there is no direction any more
70and the little ship is there; yet she is gone.

She is not seen, for there is nothing to see her by.

She is gone! gone! and yet

somewhere she is there.

Nowhere!

 

VIII 

 
75And everything is gone, the body is gone

completely under, gone, entirely gone.

The upper darkness is heavy as the lower,

between them the little ship

is gone
80she is gone.

 

It is the end, it is oblivion.

 

IX 

 

And yet out of eternity a thread

separates itself on the blackness,

a horizontal thread
85that fumes a little with pallor upon the dark.

 

Is it illusion? or does the pallor fume

A little higher?

Ah wait, wait, for there's the dawn,

the cruel dawn of coming back to life
90out of oblivion.

 

Wait, wait, the little ship

drifting, beneath the deathly ashy grey

of a flood-dawn.

 

Wait, wait! even so, a flush of yellow
95and strangely, O chilled wan soul, a flush of rose.

 

A flush of rose, and the whole thing starts again.

 


 

The flood subsides, and the body, like a worn sea-shell

emerges strange and lovely.

And the little ship wings home, faltering and lapsing
100on the pink flood,

and the frail soul steps out, into the house again

filling the heart with peace.

 

Swings the heart renewed with peace

even of oblivion.

 
105Oh build your ship of death, oh build it!

for you will need it.

For the voyage of oblivion awaits you. 


A Barca da Morte

(D.H. Lawrence - Tradução de Rui Rosado)


 

Agora é o Outono, o cair dos frutos

e a longa viagem para o esquecimento.

 

As maçãs que caem como grandes gotas de orvalho

Conseguem ferir uma saída de si próprias.

 
5É tempo de ir, do adeus

ao próprio eu, de encontrar uma saída

do eu caído.

 

II 

 

Já construiste a tua barca da morte, a tua?.

Constrói a tua barca da morte, vais precisar dela.

 
10Não tarda a geada impiedosa, e cairão as maçãs

pesadas, quase retumbantes, na terra ressequida.

 

E, no ar, a morte como um cheiro de cinzas!

Não a sentes?

 

E no corpo ferido, a alma assustada
15fica encolhida, contraíndo-se do frio

que sopra sobre ela pelos orifícios.

 

III 

 

E consegue um homem a sua quietude

com um punhal nu?

 

Com adagas, punhais, balas, um homem consegue
20uma fenda ou ferida para sair a vida;

mas é isso a quietude, diz-me, a quietude?

 

Claro que não! como pode um crime, mesmo contra si

criar quietude?

 

IV 

 

Falemos de quietudes que conhecemos,
25das que podemos conhecer, de profundas e ternas quietudes

num coração forte e em paz!

 

Como tornar, isto em quietude nossa?

 


 

Constrói, pois, a barca da morte, que vais partir

na mais longa viagem, para o esquecimento.

 
30E morre a morte, a longa e dolorida morte

que fica entre o velho e o novo eu.

 

Caíram-nos já, feridos, rasgados, os corpos,

esvaem-se-nos já as almas pela saída

dessa cruel ferida.

 
35O oceano sombrio, infindável, do fim

espraia-se já pelas nossas rebentadas chagas,

abate-se já sobre nós o dilúvio.

 

Constrói a tua barca da morte, a tua pequena arca

abastece-a com comida biscoitos e vinho,
40para o obscuro voo no esquecimento.

 

VI 

 

Pouco a pouco o corpo morre, e a alma tímida

vê o suporte levado no erguer do negro dilúvio.

 

Morrendo, estamos morrendo, estamos todos morrendo

e nada deterá o dilúvio de morte que cresce em nós
45e não tarda a erguer-se sobre o mundo, sobre o mundo exterior.

 

Morrendo, estamos morrendo, pouco a pouco morrendo

e abandona-nos o ânimo,

e abriga-se a alma nua na chuva negra sobre o dilúvio

abrigando-se nos últimos ramos da árvore da nossa vida.

 

VII 

 
50Morrendo, estamos morrendo, agora só nos resta

aceitar a morte, e construir a barca

da morte que nos leve a alma na mais longa viagem.

 

Uma pequena barca, com remos e comida

e pequenos pratos, e todo o apetrechamento
55pronto e necessário à alma de partida.

 

Agora, lança à água a pequena barca, agora, que o corpo morre

e a vida parte, lança a alma frágil

na frágil barca da coragem, na arca da fé,

com os mantimentos, as pequenas caçarolas
60e as mudas de roupa;

no negro deserto do dilúvio

nas águas do fim

no mar da morte, onde navegamos ainda,

às escuras, porque não temos leme nem existe porto.

 
65Não há porto, nenhum sítio para onde ir

apenas o negrume que se aprofunda e escurece mais,

mais negro sobre o dilúvio silencioso e inagitado

escuridão após escuridão, para cima e para baixo

e pelos lados absoluta escuridão, já não pode haver direção.
70E a pequena barca está lá, e contudo partiu.

Não pode ser vista, porque nada o permite.

Desapareceu! partiu! e contudo está

em algum lado.

Em lado algum!

 

VIII 

 
75E tudo partiu, o corpo partiu

submerso, desaparecido, inteiramente desaparecido.

A escuridão de cima é tão densa como a de baixo,

por entre elas a pequena barca

partiu
80desapareceu.

 

É o fim, é o esquecimento.

 

IX 

 

E, contudo, da eternidade separa-se

um filamento sobre o negrume,

um filamento horizontal
85que se eleva palidamente sobre o escuro.

 

Será ilusão ou eleva-se essa palidez

um pouco mais alto?

Mas espera, espera, porque há a madrugada,

a madrugada cruel do regresso à vida
90após o esquecimento.

 

Espera, espera, a pequena barca

à deriva, debaixo do cinzento mortal das cinzas

duma madrugada de dilúvio.

 

Espera, espera! mesmo assim uma réstea de amarelo
95e, por estranho, alma cansada e fria, uma réstea de rosa.

 

Uma réstea de rosa, e tudo isto recomeça.

 


 

Desde o dilúvio, e o corpo, como uma concha polida

emerge extraordinário e belo.

E a pequena barca torna a casa, deslizando, trêmula,
100sobre as águas do dilúvio róseo,

e a frágil alma desembarca, volta a casa

enchendo de paz o coração.

 

O coração renovado embala-se na paz,

mesmo na do próprio esquecimento.

 
105Constrói a tua barca da morte, a tua!

vais precisar dela.

Espera-te a viagem do esquecimento.
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