Friedrich Nietzsche - O caso Wagner

Friedrich Nietzsche - O caso Wagner, Um Problema para Músicos e Nietzsche Contra Wagner, Dossiê de um Psicólogo - Editora Companhia das Letras - 117 páginas - Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza.

Um livro muito interessante e normalmente ofuscado pelo restante da bibliografia de Friedrich Nietzsche (1844 - 1900), onde o brilhantismo e cultura do filósofo alemão podem ser apreciados em toda a sua forma, concordando-se ou não com suas polêmicas opiniões. Esta é uma crítica implacável à música de seu conterrâneo e contemporâneo Richard Wagner (1813 - 1883), segundo Nietzsche um artista da décadence que torna doente aquilo que toca: "Eis o ponto de vista que destaco: a arte de Wagner é doente. Os problemas que ele põe no palco - todos problemas de histéricos, a natureza convulsiva dos seus afetos, sua sensibilidade exacerbada, seu gosto, que exigia temperos sempre mais picantes, sua instabilidade, que ele travestiu em princípios, e, não menos importante, a escolha de seus heróis e heroínas, considerados como tipos psicológicos (uma galeria de doentes!): tudo isso representa um caso clínico que não deixa dúvidas, Wagner é uma neurose".

Se não bastasse o trecho destacado acima, Nietszche acusa Wagner de artificialismo e, neste ponto, não posso deixar de identificar semelhanças com alguns músicos de nossa época, vejam se não é o caso: "O músico agora se faz ator, sua arte se transforma cada vez mais num talento para mentir (...) essa metamorfose geral da arte em histrionismo é uma expressão de degenerescência fisiológica (mais precisamente, uma forma de histerismo)". Continuando nesta linha de raciocínio, Nietszche não poupa nem mesmo o grande romancista Victor Hugo, como nesta parte: "É uma coisa evidente: o grande sucesso, o sucesso de massa, não está mais com os autênticos - é preciso ser ator para obtê-lo! - Victor Hugo e Richard Wagner - eles significam a mesma coisa: que em culturas em declínio, onde quer que as massas tenham a decisão, a autenticidade se torna supérflua, desvantajosa, inconveniente. Apenas o ator ainda desperta o grande entusiasmo" (e aqui novamente vejo uma transposição total deste pensamento para a nossa música contemporânea).

O posfácio de Paulo César de Souza, incluindo entrevista a Curt Paul Janz, autor de uma das maiores biografias de Nietszche, esclarece um ponto pouco divulgado da biografia do filósofo: ele próprio foi um músico e publicou somente uma peça musical em vida, mas, como afirma Paulo César de Souza, seria demais querer que ele fosse um gênio também nesta arte.
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