Don DeLillo - Ponto Ômega

Literatura norte-americana
Don DeLillo - Ponto Ômega - 104 páginas - Editora Cia. das Letras - Tradução de Paulo Henriques Britto - Lançamento 2011 (ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela editora).

Depois de ter sido premiado em 2010 com o PEN/Saul Bellow Award, igualando-se a  Philip Roth (2007) e Cormac McCarthy (2009), o americano Don Delillo não tem muito  mais o que provar no campo da literatura e se arrisca em um tema mais subjetivo neste seu 15º romance que é inspirado por uma instalação de arte conceitual (24 Hour Psycho de Douglas Gordon) sobre o filme Psicose de Hitchcock. Nesta instalação, que serve como ponto de partida para o romance, o filme é projetado em dois quadros por segundo e sem som durante um dia inteiro criando uma sensação de deslocamento da consciência devido à quebra da noção de tempo.

A narrativa muda no segundo capítulo para o cineasta de uma única obra, Jim Finley, que tenta convencer Richard Elster, um ex-funcionário do governo americano de formação acadêmica, envolvido nos bastidores da Guerra do Iraque, a gravar um depoimento em uma espécie de documentário sem cortes. Os dois convivem uma temporada na casa de Elster localizada no deserto do Oeste americano (Sonora ou Mojave). Neste cenário desolado, DeLillo tem o ambiente perfeito, ainda desenvolvendo o tema do tempo paralelo, para as digressões de Elster sobre a política americana, como já é de costume, em seus romances: "O Estado precisa mentir. Não há mentira na guerra ou na preparação da guerra que não possa ser defendida. Nós fomos além disso. Tentamos criar novas realidades da noite pro dia, sequências cuidadosas de palavras que eram como slogans de publicidade de tão memoráveis e repetíveis que eram. Palavras que geravam imagem e aí se tornavam  tridimensionais. A realidade fica em pé, anda, fica de cócoras. Só que às vezes não faz nada disso.".

A chegada da filha de Elster vem acrescentar tensão à narrativa e, neste ponto, não consigo deixar de comparar o clima deste romance com Desonra de J.M. Coetzee, só que bem menos explícito no tratamento da violência, seja pela solidão e inadaptação de seus protagonistas à vida "real" ou pela técnica narrativa com base nos diálogos precisos e ritmo ágil. Enfim, temos neste livro muito material para reflexão, apesar das limitadas cem páginas que DeLillo nos presenteou e é ele mesmo que nos ensina a seguinte lição, espécie de incoerência da literatura: "A vida verdadeira não pode ser reduzida a palavras ditas ou escritas, por ninguém, nunca. A vida verdadeira ocorre quando estamos sozinhos, pensando, sentindo, perdidos na memória, autoconscientes em pleno devaneio, os momentos submicroscópicos.".
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