My Question for Myself

photo by Carolin Seeliger

As imagens acima fazem parte de um projeto da fotógrafa Carolin Seeliger e do crítico literário Tobias Wenzel de 2007 com 77 escritores, publicado na revista GRANTA. Neste ensaio é solicitado ao autor entrevistado que assuma o papel de entrevistador, fazendo a si mesmo uma pergunta e respondendo. A relação desses auto-entrevistadores, publicados na revista GRANTA Nº 100 (edição Nº 3 da versão em português) incluiu os seguintes escritores: Zadie Smith, Jonathan Franzen, Isabel Allende, Gary Shteyngart, Marie NDiaye, Hans Magnus Enzensberger, Richard Ford e o prêmio Nobel Gao Xingjian. Uma seleção para nenhum leitor colocar defeito. A fotógrafa decidiu utilizar somente retratos em preto e branco dos escritores e focando apenas nos olhos (ver a galeria completa de fotos clicando aqui). Destaquei as quatro perguntas e respostas mais criativas abaixo.

photo by Carolin Seeliger
O escritor, poeta e intelectual Hans Magnus Enzensberger é citado, normalmente, como um dos maiores poetas da língua alemã. Nascido em 1929 na Baviera, viveu a sua infância durante o governo nazista e a juventude no processo de reconstrução econômica da Alemanha. Seu posicionamento político, no início da carreira, era francamente de esquerda radical, tendo residido em Cuba nos anos sessenta. Foi considerado um sucessor do filósofo Theodor Adorno e, no campo da poesia, de Bertold Brecht. Seus ensaios e obras literárias ficaram famosos pela análise sobre a política, a crítica social e a tradição literária. Foi membro do Grupo 47, importante marco da renovação literária alemã, e professor convidado de poesia na Universidade de Frankfurt.

Ler a resenha completa para a antologia bilíngue, infelizmente fora de catálogo, "Eu falo dos que não falam" - Editora Brasiliense, 1985, Tradução Kurt Scharf e Armindo Trevisan, no Mundo de K clicando aqui.

A original pergunta e resposta de Enzensberger (que eu gostaria muito de tentar incorporar à minha vida pessoal):

"Sr. Enzensberger, por que você não é infeliz?"

"O tempo que me resta é precioso demais para isso."

photo by Carolin Seeliger
O badalado escritor Jonathan Franzen foi escolhido em 2010 para a capa da revista Time com a alcunha "Great American Novelist" (o que o colocou na companhia de alguns poucos grandes escritores que receberam tal distinção: Salinger, Nabokov, Toni Morrison, James Joyce e John Updike), segundo a revista, a escolha não se deveu ao fato de Franzen ser famoso, rico ou criar personagens com poderes mágicos, mas sim por ele refletir sobre o comportamento e valores da sociedade americana na atualidade, papel similar ao exercido por grandes romancistas do passado como Tolstoi e Victor Hugo.

Autor de Liberdade, publicado em 2010 e classificado pelo jornal The Guardian como o livro do século (Companhia das Letras, 2011). Ler a resenha completa de seu último romance, "Pureza", no Mundo de K clicando aqui.

Ler abaixo a bem-humorada pergunta e resposta de Franzen para ele mesmo:

"Sr, Franzen, você está em um ponto de sua vida e da sua carreira em que não precisa mais posar para fotos. Já foi fotografado centenas de vezes. Você poderia simplesmente dizer: chega. Por que você não faz isso? Por que você é tão simpático quando as pessoas pedem para tirar uma foto sua?"

"Bem, Sr. Franzen, essa é uma pergunta muito boa. Acho que faço isso porque me custaria ainda mais energia tentar dizer não. Faço isso porque é o caminho de menor resistência. Faço porque às vezes é mais fácil apenas ser legal. Paradoxalmente, abaixar a guarda e sorrir para a câmera é um modo de preservar minha privacidade. Ao dizer sim, você está controlando algo que pode não controlar se disser não. Quanto mais você se expõe, mais protegido está. Não entendo como funciona. Mas é assim que parece ser."

photo by Carolin Seeliger
Marie NDiaye é uma escritora, roteirista e dramaturga francesa que venceu o Prêmio Goncourt de 2009 com seu romance "Trois Femmes Puissantes" (Três Mulheres Poderosas).

"Criada na periferia parisiense, filha de mãe francesa e pai senegalês, NDiaye dedica-se integralmente à escrita – mas a uma escrita que não pretende, como poderíamos supor, encarnar a voz dos desfavorecidos, imigrantes e excluídos, temas de incessantes debates na França da atualidade." - Ler matéria completa da revista Cult, "Marie NDiaye: literatura do despertencimento"clicando aqui.

A pergunta que ela escolheu não é muito original, eu diria que está sempre presente em pelo menos sete entre dez perguntas que se costuma fazer a um escritor, mas a resposta é excelente:

"Marie, por que você escreve?"

"Escrevo há muito tempo para tentar estabelecer um pouquinho de ordem no que para mim parece uma grande confusão: o mundo, a linguagem, os pensamentos. Quero esclarecer tudo, focar como se faz ao tirar uma foto: no começo está tudo embaçado. Mas aí você começa a focalizar e o objeto aparece em toda a sua claridade. Para mim acontece o mesmo com o ato de escrever. Escrever é focar o que nos cerca."

photo by Carolin Seeliger
Richard Ford foi premiado em 2016 com o Princesa de Astúrias de Literatura. "É autor de romances e coletâneas de contos, incluindo 'O cronista esportivo', 'Independência', e 'O sal da terra'. 'Independência' foi agraciado com o Pulitzer Prize e o PEN/Faulkner Award of Fiction — foi a primeira vez que um mesmo livro arrebatou ambos os prêmios. Seu estilo de escrita costuma ser comparado com os de Faulkner, Hemingway e Steinbeck." 

A pergunta de Ford para ele mesmo é a mais simples e certeira, definitivamente, a melhor da série:

"Richard Ford, você sabe o que é importante para você?"


"Não, mas posso inventar"
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