Revista Granta Vol. 7

Os melhores jovens escritores da Espanha
Revista Granta Vol. 7 - 372 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara, 2011 - traduzido da edição 113 inglesa com o título: The Best of Young Spanish-Language Novelists.

Esta sétima edição da Granta brasileira apresenta 22 jovens escritores da Espanha e de sete países latino-americanos que tinham até 35 anos em 2010, época em que a revista foi lançada em língua inglesa e espanhola. Foi a primeira vez que a Granta lançou uma coletânea de escritores de uma língua que não o inglês. Entre os autores selecionados constam os argentinos Andrés Neuman, a badalada Pola Oloixarac e Samanta Schweblin, o peruano Santiago Roncagliolo e os espanhóis Elvira Navarro e Javier Montes. A tradição da literatura em língua espanhola, com autores do nível de Borges, Cortázar, Onetti, Fuentes, Vargas Llosa e Bolaño, para citar somente alguns, pode se tornar um peso difícil de suportar para novos escritores, mas podemos dizer que todos os textos desta coletânea buscaram seus próprios caminhos, com muita criatividade.

O conto abaixo é do argentino Patricio Pron, nascido em Rosário, na Argentina, em 1975. Segundo sua biografia resumida, aos 28 anos aprendeu a andar de bicicleta na neve da Alemanha, país da maioria dos autores que leu na infância. É autor dos volumes de contos Hombres infames (1999), El vuelo magnífico de la noche (2001) e El mundo sin las personas que lo afean y lo arruinan (2010) e dos romances Formas de morir (1998), Nadadores muertos (2001), Una puta mierda (2007) e El comienzo de la primavera (2008). Pron é doutor summa cum laude em filosofia românica pela Universidade de Georg-August de Göttingen (Alemanha). Atualmente vive em Madri, onde trabalha como tradutor e crítico.

Algumas palavras sobre o ciclo das rãs
(Trechos do conto de Patricio Pron - Argentina) 

"(...) Naturalmente eu não sabia que seria vizinho do escritor argentino vivo antes de me tornar seu vizinho; simplesmente eu estava buscando um apartamento e um amigo que costumava passar longas temporadas fora da capital havia se disposto a emprestar-me o dele, que ficava num bairro de uma cidade em que eu ia morar durante muito tempo. Farto da cidade provinciana onde nascera, eu decidi ir para a capital; ali, acreditava, poderia estar perto das coisas que me interessavam e longe das coisas que não me interessavam, ou simplesmente em outro lugar, com outros rostos e ruas de nomes diferentes ou distribuídas de outro modo, e onde talvez poderia existir uma pessoa com o meu nome que pensasse de outro modo e fizesse as coisas de outra forma, talvez mais satisfatória.

Naturalmente, tampouco nisso eu era original, pois a vida literária deste país se compunha sobretudo de jovens provincianos que aspiravam se tornar escritores e percorriam todo o caminho desde as tristes províncias até a capital e ali viviam mal e nunca mandavam cartas para a família e às vezes voltavam para a província e às vezes ficavam e se convertiam em escritores da capital de pleno direito, ou seja, em escritores que só escreviam sobre a capital e seus problemas, que eles pretendiam fazer passar pelos problemas de uma cidade pobre do sul da Europa e não pelos de uma capital latino-americana, que é o que realmente era aquela cidade. Um desses problemas embora um dos menos importantes, evidentemente eram os próprios escritores de províncias, que costumavam visitar as oficinas literárias de outros escritores de províncias chegados há mais tempo à capital e já não eram escritores de províncias ou fingiam não ser, ou escreviam em pensões imundas ou nas casas que compartilhavam com amigos, provenientes geralmente das mesmas províncias, e depois trabalhavam em lojas ou tabacarias, ou se tinham sorte em livrarias, quase sempre em horários ridículos que os impediam de poder se dedicar seriamente a escrever, com o que, cedo ou tarde, os escritores de províncias acabavam por odiar a literatura, que praticavam de língua para fora, escrevendo em ônibus repletos ou no metrô, porque esta lhes roubava algumas horas de sonho imprescindíveis para aguentar o chefe e os clientes e o clima e os longos deslocamentos em ônibus ou metrô, e porque esta sempre parecia estar um passo além do lugar aonde eles tinham chegado; sempre dava a impressão de que os escritores de províncias  iam alcançar a literatura no seu próximo conto ou no poema seguinte, de que estavam às portas de uma descoberta que, no entanto, os escritores de províncias não estavam em condição de realizar porque, lamentavelmente, para escrever é preciso ter dormido pelo menos seis horas e ter o estômago cheio e, se possível, não trabalhar numa tabacaria. E mais: é possível escrever depois de uma noite maldormida e com uma fome atroz, mas nunca trabalhando numa tabacaria; é triste, mas é assim. (...)"
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