William Blake - O Livro de Urizen

Literatura inglesa

A imagem acima da Biblioteca Digital Mundial é de uma edição do Livro de Urizen de William blake (1757-1827) da Coleção Rosenwald cedida pela Biblioteca do Congresso. Blake é um tipo raro de artista que, tanto em suas poesias quanto ilustrações, inventou a sua própria realidade e religião, moralidade e idealismo. O Livro de Urizen foi escrito provavelmente em 1790 e publicado em 1794, um período histórico, portanto, muito rico para a humanidade após as revoluções francesa e americana. Este livro, dotado de um fabuloso misticismo,  representa a visão de Blake para a Gênese dos espíritos elementares, filhos de Urizen: o ar (Thiriel), a água (Utha), a terra (Grodna) e o fogo (Fuzon).

Os textos de William Blake eram sempre acompanhados de ilustrações do próprio autor que imprimia seus livros através de um processo de prensagem desenvolvido por ele e denominado "Impressão Iluminada" para colecionadores privados ou para livreiros de Londres. Existem apenas seis raras reproduções do Livro de Urizen que, embora possuindo o mesmo texto, diferem quanto à coloração e ilustrações. O trecho abaixo é uma parte da edição bilíngue portuguesa da assírio e alvim, tradução de João Almeida Flor que eu respeitei integralmente, apesar do novo acordo ortográfico.

The Book of Urizen (trecho do cap. V)
William Blake

The globe of life blood trembled
Branching out into roots,
Fibrous, writhing upon the winds,
Fibres of blood, milk and tears,
In pangs, eternity on eternity.
At length in tears & cries imbodied,
A female form, trembling and pale,
Waves before his deathy face.

All Eternity shudder'd at sight
Of the first female now separate,
Pale as a cloud of snow
Waving before the face of Los.

Wonder, awe, fear astonishment
Petrify the eternal myriads
At the first female form now separate.
They call'd her Pity, and fled.

"Spread a Tent with strong curtains around them.
"Let cords & stakes bind in the Void,
"That Eternals may no more behold them."

They began to weave curtains of darkness,
The erected large pillars round the Void,
With golden hooks fasten'd in the pillars;
With infinite labour the Eternals
A woof wove, and called it Science.

O Livro de Urizen (trecho do cap. V)
Tradução de João Almeida Flor

O globo de sangue vivo estremecia,
Ia espalhando raízes fibrosas
Que se torciam no vento,
Fibras de sangue, leite e pranto,
Em dores eternas, por séculos infindos.
Por fim, encarnada em pranto e lamento
Pairou-lhe diante do rosto de morte
Uma forma feminina e lívida a tremer.

Tremeu a Eternidade inteira, ao ver 
A primeira fêmea diferençada,
Lívida, a lembrar nuvem de neve,
Pairando defronte do rosto de Los.

Fascínio, terror, temor, surpresa,
E as miríades da Eternidade tornam-se pedra
Ao ver a primeira fêmea diferençada.
Deram-lhe Piedade por nome, e debandaram.

"Erguei uma Tenda em volta, de cortinados densos,
Prendei o vácuo entre corda e pilares,
Para os Eternos não os verem mais."

Teceram, pois, cortinas de negrume,
Ergueram altos pilares a cercar o Vácuo,
Onde se prendiam ganchos de ouro;
E os Eternos, com trabalho porfiado,
Teceram véus, chamando-lhes Ciência.
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