Simone de Beauvoir - A Mulher Desiludida

Literatura francesa

Ao ler este clássico do movimento feminista, me ocorreu questionar por que ainda devemos ler "A Mulher Desiludida" de Simone de Beauvoir (1908-1986) cinquenta anos após o seu lançamento. A resposta talvez passe pela constatação de que o feminismo ainda não atingiu o seu objetivo de libertação da mulher em muitas sociedades ou ainda simplesmente para conhecer o texto de uma das maiores pensadoras da filosofia existencialista e da política do século XX, mas acho que o livro deve ser lido mesmo pelo que ele tem de melhor — e isto pode ser confirmado com o distanciamento crítico que só o tempo promove — o fato de ser uma bela obra de literatura sobre a solidão.

A obra reúne três novelas curtas ou contos sobre mulheres maduras que enfrentam crises familiares, profissionais e de relacionamento, paralelamente ao processo de frustração pelo envelhecimento. A primeira narrativa, "A idade da discrição", é claramente autobiográfica e trata do cotidiano de um casal de intelectuais maduros, politicamente de esquerda (semelhantes à Simone de Beauvoir e Sartre) que se sentem traídos pela opção conservadora do filho, Filipe, que decide aceitar o convite do sogro para uma vantajosa posição no Ministério da Cultura em detrimento de sua tese e de uma carreira acadêmica. A sequência abaixo, destaca as reflexões da protagonista sobre a vida em casal e o envelhecimento.
"Sempre olháramos longe. Seria necessário aprender a viver o dia-a-dia? Estávamos sentados lado a lado sob as estrelas, tocados pelo aroma do cipreste, nossas mãos se encontravam; o tempo havia parado por um instante. Iria continuar a escorrer. E então? Sim ou não, poderia ainda trabalhar? Minha raiva contra Filipe se esfumaria? A angústia de envelhecer me retomaria? Não olhar muito longe. Longe seriam os horrores da morte e dos adeuses. Seria a dentadura, a ciática, as enfermidades, a esterilidade mental, a solidão em um mundo estranho que não compreenderíamos mais e que prosseguiria seu curso sem nós. Conseguiria não levantar os olhos para esses horizontes? Quando aprenderia a percebê-los sem pavor? Nós estamos juntos, é a nossa sorte. Nós nos auxiliaremos a viver essa derradeira aventura da qual não retornaremos. Isso no-la tornará tolerável? Não sei. Esperemos. Não temos escolha."
O segundo conto, "Monólogo", tem como matéria-prima o fluxo de consciência da protagonista, Murielle, e o seu sofrimento após duas separações e o suicídio da filha Sylvie. Trata-se de uma composição experimental, em estilo livre e sem pontuação que tenta representar o pensamento confuso e doloroso da personagem diante da solidão em que ela se encontra na noite de Ano Novo.
"Durante toda a minha vida serão sempre duas horas da tarde de uma terça-feira de junho. 'A senhorita dorme um sono profundo demais não consigo acordá-la.' Meu coração deu um pulo eu me precipitei gritando: 'Sylvie você está sentindo alguma coisa?' Ela parecia dormir ainda estava morna. Tinha morrido há algumas horas me disse o médico. Eu urrei rodei no quarto como uma louca. Sylvie Sylvie por que você fez isso comigo? Eu a a revejo serena tranquila e eu desnorteada e aquele bilhete para o pai não significava nada eu o rasguei ele fazia parte da encenação aquilo não passava de uma encenação eu estava certa eu estou certa — uma mãe conhece sua filha — de que ela não tinha querido morrer mas ela havia exagerado a dose ela estava morta que horror! É fácil demais com essas drogas que são conseguidas de todo jeito; essas garotas por um sim por um não elas brincam de suicídio; Sylvie seguiu a moda: não acordou mais."
No último conto, Monique, típica dona de casa, vive uma situação humilhante ao descobrir que o marido Maurice tem uma amante; abandonada e desprezada ela conta em seu diário a degradação progressiva do relacionamento que ela procura manter de todas as formas, mesmo sabendo que é traída. O apego ao casamento, mesmo com o consentimento da vida dupla do marido com Noelli, a "outra", passa a ser uma obsessão e o único sentido da vida de Monique. Certamente, todos já ouvimos falar de algum caso assim.
"E esta noite, imagino que Maurice pode estar contando nossa conversa a Noellie. Como não tinha ainda pensado? Eles falam deles, portanto também de mim. Entre eles existem conivências como entre Maurice e eu. Noelli não é somente um estorvo em nossa vida: no idílio deles, eu sou um problema, um obstáculo. Para ela não se trata de um passatempo. Pretende manter com Maurice uma ligação séria e é esperta. Meu primeiro impulso fora o certo. Deveria ter dado logo um basta na história, dizer a Maurice: ou ela ou eu. Ele ficaria de mal comigo um certo tempo mas depois sem dúvida me teria agradecido. Não fui capaz."
Sobre o feminismo, agora me ocorre uma ótima citação de Mary Shelley (1797 - 1851), autora de Frankenstein que, já no século XIX, afirmava o seguinte: "Não desejo que as mulheres tenham mais poder que os homens, mas sim que tenham mais poder sobre si mesmas."
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