Roberto Bolaño - O espírito da ficção científica

Roberto Bolaño - O espírito da ficção científica
Roberto Bolaño - O espírito da ficção científica - Editora Companhia das Letras - 184 Páginas - Tradução de Eduardo Brandão - Lançamento no Brasil: 03/02/2017.

Em dezembro do ano passado, durante a Feira do Livro de Guadalajara, Lautaro Bolaño, filho de Roberto Bolaño (1953-2003), e Carolina López, sua viúva, participaram do lançamento de "O espírito da ficção científica", ambientado na Cidade do México nos anos 1970, mas escrito em Blanes, Espanha, em 1984, conforme atesta a assinatura de Bolaño no manuscrito original. A obra faz parte de um legado literário de mais de 14.000 páginas, entre cadernos, pastas e cartas, deixado pelo escritor chileno, que é considerado o mais influente da literatura espanhola contemporânea. Não há como fugir da antiga discussão sobre a validade de herdeiros lançarem no mercado obras inéditas que não foram devidamente finalizadas e aprovadas pelos próprios criadores, como é o caso deste romance. Na verdade, Bolaño, que morreu com apenas 50 anos, é frequentemente citado neste tipo de polêmica já que alguns de seus livros mais importantes foram lançadas postumamente, como é o caso de "2666" e "O Terceiro Reich".

A própria literatura e o processo de criação literária, assim como ocorre em outros livros de Bolaño, são os temas principais de "O espírito da ficção científica". Dois jovens aspirantes a escritor, Jan Schrella e Remo Morán, dividem um modesto quarto na cobertura de um prédio de seis andares na Cidade do México, dormindo em colchões diretamente apoiados no chão de tijolos e dependendo de chuveiros comunitários que só têm água fria, mas "de onde se podem observar amanheceres extraordinários". Este tipo de contraste entre o otimismo juvenil dos protagonistas e a pobreza generalizada que os cerca norteia todo a narrativa. Certamente o livro tem um caráter autobiográfico já que o próprio Bolaño, em seus tempos de poeta e escritor iniciante, morou nesta cidade e conviveu com a geração de poetas e escritores mexicanos, fundando o movimento infrarrealista nos anos 1970, juntamente com Mario Santiago Papasquiaro, José Vicente Anaya, Rubén Medina e José Rosas Ribeyro.
"O edifício em que morávamos era cinza-esverdeado, como o uniforme da Wehrmacht, dissera Jan três dias antes, ao encontrar o quarto. Nos balcões dos apartamentos viam-se flores; mais acima, menores que algumas jardineiras, ficavam as janelas dos tetos dos prédios. Senti-me tentado a gritar a Jan que aparecesse à janela e observasse nosso futuro. E depois? Picar a mula, dizer a ele vou indo, Jan, trarei abacates para comermos (e leite, embora Jan odiasse leite) e boas notícias, supercarinha, o equilíbrio imaculado, o desastrado perpétuo nas antessalas do grande trabalho, serei repórter estrela de uma seção de poesia, telefones não me faltavam. (...) Segundos depois, quando ainda não saíra da sombra do nosso edifício, ou do tecido de sombras que cobria esse trecho, apareceu minha imagem refletida na vitrine do Sanborns, estranha cópia mental, um jovem com uma camiseta azul destroçada e cabelo comprido, que se inclinava com uma estranha genuflexão ante os adornos e os crimes (mas que adornos e que crimes, de imediato me esqueci) com pães e abacates entre os braços e um litro de leite Lala, e os olhos, não os meus mas os que se perdiam no buraco negro da vitrine, empequenecidos como se de repente tivessem visto o deserto. (...) Pensei que nunca aconteceria nada de mau conosco naquela cidade tão acolhedora. Como estava perto e distante do que o destino me reservava! Como agora são tristes e transparentes em minha memória aqueles primeiros sorrisos mexicanos!" - (Págs. 19 e 20)
Jan  Schrella é um apaixonado pelo gênero de ficção científica, ele fica no quarto todos os dias cercado de livros e escrevendo cartas delirantes para vários escritores norte-americanos desse gênero que "com toda probabilidade nunca conhecerá". Já Remo Morán é um poeta, mas ganha a vida escrevendo algumas matérias em suplementos culturais e artigos para uma revista de história. Remo conhece outros jovens ao frequentar a Oficina de Poesia da Faculdade de Filosofia e Letras, entre eles José Arco, proprietário de uma moto Honda preta, fato que surpreendeu Remo porque "naqueles dias as motos circulavam dentro dos poemas, cada vez mais numerosas, mas não os poetas em motos reais  e por ruas reais". Por meio de José Arco, os dois amigos passam a vivenciar experiências de vida relacionadas com a  amizade, sexo e liberdade em uma espécie de comunidade alternativa e Remo se apaixona pela sensual Laura.
"Laura me contou então que na noite da reunião em nosso quarto Jan e Angélica tinham feito amor. Eu devia estar muito bêbado ou drogado ou deprimido ou imerso na leitura de López Velarde, o caso é que não me dei conta. Angélica tinha se sentido mal e sua irmã e Jan a acompanharam ao banheiro. A verdade é que o ar dentro do quarto não podia ser pior. Num dos varais de estender roupa Laura encontrou Lola Torrente, José Arco e Pepe Colina. Angélica e Jan tinham sumido. César estava bastante bêbado e queria ir embora. Rogou, suplicou, ameaçou vomitar, pobre César, mas não teve jeito. Laura o proibiu de maneira terminante. Num canto cheio de baldes e caixas vazias de sabão em pó César tentou fazer amor com Laura enquanto ela contemplava a rua apoiada no parapeito. Ficou só na vontade. Laura continuou vagando  sonolenta pela cobertura (como a princesa que percorre com uma vela o castelo do príncipe com quem vai se casar!) até que numa das voltas chegou ao que Jan chamava alegremente de latrinas. Parou ali indecisa e pouco depois percebeu um ruído abafado proveniente de uma delas. Pensou que Angélica estava pior do que parecia e se aproximou para investigar. Nada mais falso. Jan estava sentado no vaso, a calça abaixada até o tornozelo e com os dedos da mão esquerda segurava um palito de fósforo. Montada nele, Angélica cavalgava em cima do seu pau ereto. De vez em quando, o fósforo queimava a ponta dos seus dedos, Jan o soltava e acendia outro. Discreta, Laura voltou para junto dos outros. No dia seguinte, Angélica lhe contou o que ela já sabia e alguns pormenores." - (Pág. 165)
O romance demora um pouco a engrenar porque inicia intercalando capítulos com uma entrevista em estilo surrealista de um suposto autor ganhador de um prêmio literário que descreve o argumento da obra vencedora, a surpreendente Academia da Batata, uma das faculdades espalhadas pelo mundo da Universidade Desconhecida, uma narrativa experimental difícil de acompanhar, talvez pelo estado inacabado do romance de Bolaño. De qualquer forma, os leitores já iniciados no universo do autor não irão se decepcionar ao identificar várias boas ideias que seriam desenvolvidas em outros romances, inclusive o protagonista Remo que volta a aparecer em "Pista do Gelo", romance publicado em 1993. Para os leitores que pretendem ler Roberto Bolaño pela primeira vez não é a melhor escolha.
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