A internet aproxima ou afasta as pessoas?

A internet aproxima ou afasta as pessoas?
Fotos de Evan Baden - Série "Illuminati"

Segundo Gonçalo M. Tavares: "O telefone foi inventado para afastar umas pessoas das outras". A bem-humorada citação é de seu livro "O senhor Henri e a enciclopédia", onde o título é uma referência ao poeta belga Henri Michaux. O autor utiliza portanto um aforismo às avessas para nos fazer refletir e, curiosamente, antecipa uma realidade semelhante à que vivenciamos hoje nas redes sociais como: facebook, twitter e instagram (sem falar nos grupos do famigerado aplicativo WhatsApp), ferramentas que foram criadas pretensamente com o objetivo de aproximar as pessoas e atingem resultado oposto na prática, ou alguém ainda duvida disso?

As imagens que abrem esta postagem são do fotógrafo Evan Baden de 2007, uma série com o título "The Illuminati" onde ele já chamava a atenção (dez anos atrás) para a relação dos jovens com os seus dispositivos móveis (smartphones, computadores, jogos etc) por meio de imagens focadas nos seus rostos iluminados pelas telas, flagrando assim uma expressão perdida, tão comum hoje em dia. Parece incrível que todos esses dispositivos eletrônicos e aplicativos tenham sido criados tão recentemente e se tornado fundamentais em nossas vidas. Obviamente não sou contrário à tecnologia, até porque a maior parte do meu dia útil é gasta em frente a uma tela, mas é certo que há algo estranho com esses olhares perdidos.

Por coincidência, este blog foi criado também há dez anos e, nesta época, o facebook ainda engatinhava no Brasil. Hoje, com mais de um bilhão de usuários em todo o mundo, nos parece que a rede social sempre existiu, apesar de ter sido lançado em fevereiro de 2004 por Mark Zuckerberg e alguns amigos de Harvard. Antes do facebook, os blogs recebiam dezenas de comentários de visitantes que realmente liam as postagens. Hoje, apesar da facilidade de divulgação nas redes sociais, as pessoas se limitam a "curtir" ou compartilhar uma imagem bonita de determinada postagem sem ler o conteúdo (muitas vezes chegam até a comentar sem ter realmente lido).

Outro fato cada vez mais trivial na era das redes sociais é a disseminação de notícias falsas, geralmente de caráter sensacionalista. O fenômeno é tão recorrente que já existem até mesmo sites especializados neste tipo de "notícia" que se tornam mais populares do que as mídias de jornalismo oficial e as notícias pretensamente verdadeiras, principalmente no campo da política. É comum notarmos o constrangimento de pessoas, geralmente bem intencionadas, quando descobrem que repassaram boatos sem a devida verificação prévia, normalmente inverossímeis. Sem falar na polarização política que acaba se transformando em uma briga de torcidas.

De qualquer forma, é um fato incontestável que o mundo virtual veio para ficar e seria absurdo ignorar os aspectos positivos desta realidade. Precisamos controlar e utilizar a tecnologia com discernimento e não sermos controlados por ela. Quando o filósofo canadense McLuhan criou o conceito de "Aldeia Global" no já distante século XX, os sinais de encurtamento das distâncias e um mundo no qual todos estariam interligados era uma tendência clara, mas ninguém imaginava que chegaríamos a este ponto com um mundo cada vez mais globalizado e estéril de ideias e ideais. A privacidade acabou, mas estamos cada vez mais solitários.
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