Hilda Hilst - Da poesia


Hilda Hilst - Da poesia - Editora Companhia das Letras - 584 Páginas - Lançamento: 13/04/2017.

Um livro absolutamente imperdível. Tão pouco conhecida, a poesia de Hilda Hilst (1930-2004) finalmente começa a ganhar o merecido lugar de destaque na literatura brasileira. Todos os seus poemas lançados em 25 livros, desde "Presságio", de 1950, até "Cantares do sem Nome e de Partidas", de 1995, reunidos em um único volume, em uma bem cuidada edição que conta com desenhos da própria Hilda, posfácio de Victor Heringer, texto de Lygia Fagundes Telles, carta de Caio Fernando Abreu para a autora e uma entrevista que Hilda concedeu a Vilma Arêas e Berta Waldman, publicada originalmente no Jornal do Brasil em 1989. Finalmente uma seleção de versões e esboços de poemas inéditos, recolhidos na Casa do Sol e na Unicamp. Uma obra que se lê com prazer do início ao fim, mas que deve ser relida aos poucos, uma espécie de livro sagrado (e profano) para nos acompanhar por toda a vida.

Hilda Hilst não obteve o devido reconhecimento em vida e se tornou mais famosa pelo seu comportamento exótico do que por sua obra, como ocorre normalmente com os autores à frente do seu tempo. "Em 1963, abandonou a agitada vida social e se mudou para a fazenda da mãe em São José, próxima a Campinas. Lá, em um lote desse terreno, construiu sua chácara, Casa do Sol, onde passou a viver a partir de 1966, ano da morte de seu pai. Na companhia do escultor Dante Casarini — com quem foi casada entre 1968 e 1985 — e de muitos amigos que por lá passaram, ela, sempre rodeada por dezenas de cachorros, se dedicou exclusivamente à escrita. Além de poesia, na década de 1970 ampliou sua produção para ficção e peças de teatro."

Os seus primeiros livros foram publicados em pequenas editoras como a Anhambi de São Paulo e posteriormente pelo amigo Massao Ohno, e já se esgotaram, passando a ser relançados em 2001 pela Editora Globo, organizados pelo crítico literário Alcir Pécora, com a intenção de editar as obras completas. Luiz Schwarcz, presidente do Grupo Companhia das Letras, admite, nesta matéria, que a nova edição é uma reparação de um erro do passado. Hilda enviou os seus livros para ele no início dos anos 1990, mas foi rejeitada. "É a reparação de um erro cometido no passado", afirmou o editor. "Na ocasião, a linha editorial da Companhia das Letras em poesia era bem mais restrita. Fico feliz em reparar esse erro e é uma pena que não tenha acontecido com a Hilda ainda em vida." 

Na verdade, a própria autora tinha consciência da importância de sua obra e, por isso mesmo, lamentava não poder ser mais lida, como afirmou no trecho abaixo, ao Suplemento Literário de Minas Gerais, em abril de 2001:
"Não é que eu queira uma aceitação do público. Mas quando a gente vai chegando à velhice como eu, com setenta anos, dá uma pena ninguém ler uma obra que eu acho maravilhosa. Fico besta de ver como as pessoas não entendem o que escrevi. Recuso-me a dar explicações. Falam coisas absurdas, que a minha obra não tem pontuação, não tem isso, não tem aquilo... Acho desagradável ter que falar sobre a minha obra, é muito difícil. Sei escrever." - Trecho da Apresentação (Pág. 13)
A poesia de Hilda Hilst é complexa sim, mas sempre transbordante de emoção, amor, vida e morte. Surpreendeu a crítica e o seu pequeno público da época ao tratar o sexo de maneira natural. Alguns de seus livros chegaram a ser chamados de pornográficos, talvez em uma estratégia de marketing, de certa forma suicida, para chamar a atenção para sua literatura transgressora em três publicações em prosa: "O caderno rosa de Lori Lamby," de 1990, "Contos d'escárnio/ Textos grotescos", de 1990, e "Cartas de um sedutor", de 1991. Independente desses livros que a aproximavam do obsceno, colocando-a na vanguarda do movimento feminista, ela tinha uma visão bem diferente do seu estilo quando afirmava: "O erótico, para mim, é quase uma santidade. A verdadeira revolução é a santidade".

Presságio (1950)
Pemas primeiros - Pág. 70

Tenho pena
das mulheres que riem com os braços
e choram de mentira para os homens.
E descobrem o seio antes do convite
e morrem no prazer... olhos fechados.

Tenho pena
do poeta feito para só ser pai... e ser poeta.
E daqueles que dormem sobre o papel
à espera do vocábulo
e dos que fazem filhos por acaso
e dos doidos e do cão que passa

e de mim... que espero a morte
na confusão e no medo.


Roteiro do Silêncio (1959)
Sonetos que Não São - Pág. 90

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar... se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


Ode Fragmentária (1961)
Testamento Lírico - Pág. 159

Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi

Na criança que fui, tão confundida.

À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.

O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras doiradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.

Eu era uma criança delirante.

Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.

O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo

Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil

Querer deixar um testamento lírico

E escutar (apesar) entre as paredes 
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós resguardará (por certo)

A criança que foi. Tão confundida.


Da Morte. Odes Mínimas (1980)
Poema XXIII - Pág. 330

Porque conheço dos humanos
Cara, crueza,
Te batizo Ventura
Rosto de ninguém
Morte-Ventura
Quando é que vem?

Porque viver na terra
É sangrar sem conhecer
Te batizo Prisma, Púrpura
Rosto de ninguém
Unguento
Duna
Quando é que vem?

Porque o corpo
É tão mais vivo quanto morto
Te batizo Riso
Rosto de ninguém
Sonido
Altura
Quando é que vem?
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