Regina Taccola - Vida Louca

Literatura brasileira
Regina Taccola - Vida Louca - Chiado Editora - 86 páginas - Imagem de capa: Regina Taccola. Vaso de flores, reflexos - Lançamento 2017.

Os contos de Regina Taccola são velozes como a vida nos grandes centros urbanos e refletem o absurdo da condição humana em um cenário de contrastes que me faz lembrar de Albert Camus ao escrever sobre o período de sua infância em uma região pobre da Argélia: “Fui posto a meio caminho entre a miséria e o sol”. É esta indefinição entre paraíso e inferno que compartilhamos no Rio de Janeiro e logo reconhecemos ao ler as narrativas ambientadas na zona sul carioca, onde a beleza natural das praias e a condição de um status social privilegiado não sustentam o domínio que pensamos exercer sobre o nosso destino, na verdade um frágil controle que pode ser subitamente interrompido pela violência que ronda as ruas e as lojas sofisticadas do bairro de Ipanema.

A temática urbana já havia sido bem explorada pela autora em seu livro de estreia, “Uma tarde embalada pelo mar”, em que ficava evidente também a experiência médica de Regina Taccola no campo da psicanálise como matéria-prima para a construção de seus personagens. No entanto, alguns contos deste seu novo livro se situam em regiões menos precisas em termos de tempo e espaço, é o caso de “A mensagem”, inspirado nos últimos momentos da poeta Sylvia Plath prestes a cometer o suicídio, um belo exercício de recriação da vida pela arte e uma chance de conhecermos um novo final para a história da atormentada escritora (ler a postagem e o conto completo no Mundo de K: "Um conto para Sylvia Plath")

Por sinal, finais inesperados são uma marca de Regina Taccola que, no seu estilo singular de poucas e certeiras frases, conduz o leitor no curto espaço de manobra de seus contos por acontecimentos que podem se passar também no inconsciente dos personagens, durante as quentes noites insones do verão carioca onde "um véu de maresia traz o hálito do mar”, mas também um choro insistente que vem de muito longe, um lamento que não se reconhece nos sons da madrugada, ruídos estranhos que fazem com que protagonista e leitor se identifiquem em um estado de mau pressentimento que norteia toda a narrativa de “As meias de meu pai”.

Em “O baile” a autora nos oferece uma deliciosa pausa na materialidade do mundo real nos levando até um passado remoto por meio da lembrança de um baile tradicional de formatura, época perdida em um tempo de fantasia e poesia, no qual a sensual excitação dos corpos jovens é apenas sugerida, “tudo disfarçado, sorrateiro como um roubo”. E então o toque de mestre, percebemos que a verdadeira protagonista deste conto não é a jovem debutante, mas uma menina de doze anos que presencia maravilhada toda a cena. Outra criança é também a protagonista em “Perdida”, uma garota de cinco anos que não consegue mais enxergar o tio em plena balbúrdia da praia de Copacabana lotada.

Mas logo voltamos ao cenário de violência urbana com “O chofer", que nos faz lembrar de certos eventos recentes e chocantes divulgados pelo noticiário policial, o estupro coletivo de uma jovem em uma das favelas do Rio, uma agressão que parece se multiplicar em sua potencialidade quando analisada por um motorista de taxi preconceituoso em sua visão machista que transfere a culpa dos agressores para a vítima no absurdo de uma convicção que só a ignorância pode explicar. A protagonista se surpreende com a maldade: “Aquela garota parecia minha neta, vista só de costas, com o cabelo amarrado no alto da cabeça, num nó. Minha linda e amada neta. Dor no estômago.”

Convido os leitores a conhecerem o universo ficcional da médica, psicanalista e escritora Regina Taccola, um universo localizado em uma desconfortável zona de proximidade com o nosso cotidiano, representando uma realidade que é assustadora porque nos agride e intimida, mas que a autora sabe bem como utilizar em suas breves narrativas para mostrar os limites do que existe de belo e assustador na natureza humana. É neste ato de criação que identificamos não só uma forma de arte, mas também a esperança na força transformadora que a literatura pode exercer na sociedade e, principalmente, em nós mesmos.
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