Geraldo Lima - Uma mulher à beira do caminho

Literatura brasileira

Geraldo Lima - Uma mulher à beira do caminho - Editora Patuá - 150 Páginas
Ilustração de capa, projeto gráfico e diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2017

Os contos de Geraldo Lima nos fazem refletir sobre situações extremas provocadas pela desigualdade social, alimentadas por essa espécie de racismo velado tão comum em nosso país. No entanto, este seria um resumo muito simplista para um texto que sabe lidar com o absurdo da condição humana e suas contradições psicológicas, utilizando uma linguagem simples e direta, contudo não desprovida de poesia, na melhor tradição de alguns mestres do gênero da narrativa curta. A antologia, organizada em duas partes com um bonito projeto gráfico, reúne treze contos escritos ao longo de vinte anos e publicados em blogs, sites, revistas eletrônicas e suplementos literários.

Em "Uma mulher à beira do caminho", conto que empresta o título ao livro, o autor imagina o improvável encontro entre um juiz e uma prostituta, ambos representantes desses dois extremos da nossa estranha sociedade. Uma noite de chuva forte, o juiz que sempre foi um homem prudente, toma uma decisão por impulso e decide dar carona à mulher encharcada. A partir deste ponto, ocorre uma luta entre o desejo instintivo que o juiz sente e o medo das consequências, assim como o contraditório asco por aquela mulher miserável de pés encardidos. Que sentimento sairá vencedor no interior daquele carro, onde "há um cheiro forte, denso, quase irrespirável", o desejo ou o nojo?

Já em "Jornada", o texto nos fala de um casal pobre que enfrenta os perigos de uma caminhada de alguns dias à margem da estrada para pagar promessa, pessoas que também existem neste imenso Brasil de contradições, tudo em nome da força de uma fé que persiste, apesar de tudo. "Foi atendendo à necessidade de vencer o desespero, de romper o cerco que ele impõe à alma e ao corpo, que o casal se pôs nessa marcha. Faz dois dias que estão na estrada. dois longos dias sob o frio das manhãs e o sol vibrante das tardes do mês de julho."

"Tarde demais" é uma narrativa que poderia ocorrer em qualquer favela e transborda violência logo na frase de abertura: "Chegaram, meteram o pé na porta de casa e entraram sem pedir licença". Em alguns poucos parágrafos curtos, mas de intensa carga dramática, testemunhamos a ação de uma justiça que não precisa de ordem judicial e funciona à margem do sistema. Uma família sofre a brutalidade de uma vida sem opções, em que as escolhas erradas são definitivas e cobram o seu preço, mais cedo ou mais tarde.

Geraldo Lima tem essa capacidade de chamar a atenção para elementos simples do cenário cotidiano, coisas como a "pele do isopor azul" que reveste a garrafa de cerveja entre dois personagens que conversam em uma mesa de bar, "um azul já meio desbotado, danificado por rabiscos e pequenas escavações". Em um dos desenhos "um coração trespassado por uma flecha bastante rústica" e o detalhe definitivo: "duas gotas de sangue azul-claro pendiam paralelamente em busca do nada." Esta é a fantástica introdução do conto "Mesa de bar", uma conversa sobre ciúme e traição, que bem poderia estar ocorrendo logo ali, em uma esquina qualquer do seu bairro.

Literatura brasileira
Sobre o autor: Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, Baque (conto, LGE Editora), UM (romance, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3x4, Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado (teatro, Ponteio Edições). Participou de algumas antologias literárias, como: Antologia do conto brasiliense (org. por Ronaldo Cagiano, Projecto Editorial, 2004), Todos os portais: realidades expandidas (antologia de contos de ficção científica org. por Nelson de Oliveira, Terracota, 2012), e Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro (org. por Anderson Fonseca e Mariel Reis, Oito e Meio Editora, 2013). Tem textos publicados em jornais, revistas impressas e revistas eletrônicas. É autor do roteiro do longa de ficção O colar de Coralina – direção de Reginaldo Gontijo – e da peça de teatro Trinta gatos e um cão envenenado, encenada em 2016 em Brasília.
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