Silviano Santiago - Machado

Literatura brasileira
Silviano Santiago - Machado - Editora Companhia das Letras - 424 Páginas - Lançamento: 07/12/2016 (Leia um trecho disponibilizado pela Editora).

Talvez o romance brasileiro mais premiado de 2017, tendo vencido o Jabuti nesta categoria, eleito como livro do ano de ficção pela organização e ainda levado o segundo lugar do Prêmio Oceanos (antigo Portugal Telecom de Literatura), "Machado" não é exatamente — ou somente — um romance, embora contenha elementos de ficção. Pode ser classificado com facilidade também como um ensaio de crítica literária, biografia ou até mesmo estudo de pesquisa histórica. É bom que se diga que, em qualquer dessas categorias, é um livro que reflete a erudição do professor Silviano Santiago, Doutor em letras pela Sorbonne, exigindo atenção redobrada do leitor, assim como algum conhecimento prévio sobre a obra machadiana.

O autor limita o período histórico do livro de 1905 a 1908, de acordo com o quinto volume da correspondência de Machado de Assis, publicado pela Academia Brasileira de Letras, da qual ele foi presidente e fundador, focando, portanto, nos últimos anos do nosso maior romancista. Solitário após a morte da companheira de toda a vida, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, sem filhos ("Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria." - "Memórias Póstumas de Brás Cubas") e a terrível epilepsia que provocava crises cada vez mais frequentes, uma doença que o grande escritor não tinha mais como ocultar da sociedade, Machado de Assis dividia o seu tempo entre a luta para terminar o último romance, "Memorial de Aires", o atendimento ao serviço público e o relacionamento com outros escritores e intelectuais da época, como por exemplo Mário de Alencar, filho de José de Alencar, com quem trocou extensa correspondência durante o período pelo fato de sofrerem da mesma doença e compartilharem o mesmo médico, o Dr. Miguel Couto.
"No Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, onde tem a função de chefe de contabilidade, na Livraria Garnier, onde passa o final das tardes a conversar com colegas de literatura, e na recém-fundada Academia Brasileira de Letras, de que é o presidente desde a fundação em 1896, fala-se à boca pequena que, em virtude da solidão, e da tristeza reinante no lar, as antigas e intermitentes crises nervosas do viúvo (as chamadas 'vertigens', causadas pela imprudência de não conseguir seguir à risca o conselho médico e evitar o café) estão se tornando constantes e públicas. Observa-se e se comenta que o aplicado funcionário público, o leitor atento e crítico da produção literária clássica e europeia e o romancista de renome internacional estão os três enfermos. Os três continuam também produtivos e, a cada dia que passa, mais exibem os achaques da idade aos íntimos e ao médico clínico, o dr. Miguel Couto." (Pág. 17)
Silviano Santiago tece consideráveis digressões ao narrar o contexto histórico e literário da época, resgatando figuras pouco conhecidas, como Carlos de Laet, Mário de Alencar, o médico Miguel Couto e a própria cidade do Rio de Janeiro, uma das maiores personagens do livro, então capital federal do novo sistema republicano, o Rio sofria intensas transformações e modernizações desde a última década do século XIX até o início do século XX, talvez a maior delas o projeto e construção da avenida Central (hoje Av. Rio Branco), liderada por Paulo de Frontin. As obras iniciaram-se em março de 1904, transformando em pouco tempo a área suja e conturbada do velho centro colonial em avenidas largas com influência da arquitetura europeia, uma região hoje conhecida como Centro do Rio. Surgem, também nesta época, as primeiras habitações precárias dos operários, construídas com telhado de zinco na subida do morro da Favela, perto da região das obras. Já em 1908, o escritor Coelho Neto chamaria a capital federal de Cidade Maravilhosa, com as belezas e contradições que conhecemos tão bem até hoje.
"A capital federal assistiu à chegada de sucessivas correntes migratórias na última década do século. Seus novos moradores vinham do interior do próprio estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e também da Bahia. A primeira das correntes migratórias é consequência da Abolição da Escravidão. Os interioranos trocam suas ocupações na roça pelas ocupações de operário na cidade imperial em reconstrução republicana. A segunda das correntes migratórias, do final da Guerra de Canudos. Ao voltarem da famosa campanha militar, os soldados da tropa não encontram à espera o emprego no estado natal. O número de migrantes é acrescido pelo grande número de imigrantes estrangeiros." (Pág. 180)
A pesquisa histórica é minuciosa e realmente fascinante mas, na minha opinião, é como crítico literário que o brilhantismo de Silviano Santiago se destaca nesta obra. Uma questão tratada no livro, por exemplo, é a dissimulação das personagens femininas e o ciúme como um dos elementos centrais na obra de Machado de Assis. Seja na formação do triângulo amoroso com Capitu, Bentinho e Escobar em "Dom Casmurro" ou com o protagonista Félix que cancela o casamento com a viúva Lívia após receber uma carta anônima que provoca a sua dúvida sobre o caráter moral da amada em "Ressurreição", não faltam exemplos da musa com um caráter de ambiguidade moral.
"Sem temor e com audácia, Machado de Assis está sempre desgastando de modo atribulado e enviesado a figura exemplar da musa. Nos seus escritos literários, em oposição ao que se passa nos grandes poemas líricos da tradição ocidental, a personalidade fascinante da mulher amada não é modelar. Neles, a bela, sedutora e privilegiada figura poética feminina vem envolta pela aura não só da dissimulação, traço dominante do seu temperamento volúvel, como também da ambiguidade, atitude que evidencia a frivolidade na expressão dos sentimentos mais íntimos. Nos escritos literários machadianos, falta à amada sinceridade no amor, postura indispensável à realização do acasalamento almejado pelo protagonista masculino. Representada como dissimulada e ambígua (estou recorrendo a vocábulos recorrentes na ficção machadiana), a amada gesta no coração amoroso masculino dúvidas e mais dúvidas que terminam por corroer a imagem tradicional da musa." (Pág. 246)
E, no entanto, a própria experiência de Machado de Assis com o amor é inequívoca, como prova o famoso soneto que escreveu para a falecida esposa Carolina: "Trago-te flores — restos arrancados/ Da terra que nos viu passar unidos/ E ora mortos nos deixa e separados". A única exceção de felicidade matrimonial em sua literatura ocorre justamente no último romance, "Memorial de Aires", onde o velho casal Aguiar, também sem filhos, é exemplo de felicidade no casamento. Silviano Santiago comenta alguns pontos muito interessantes sobre a gênese deste romance com base no manuscrito preservado na Academia Brasileira de Letras e a relação da protagonista dona Carmo com Carolina, impossível de resumir aqui.
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