Paul Beatty - O Vendido

Literatura norte-americana

Paul Beatty - O Vendido (The Sellout) - Editora Todavia - 320 Páginas - Capa: Pedro Inoue -  Tradução de Rogério Galindo - Lançamento no Brasil: 12/07/2017

Paul Beatty se tornou o primeiro autor norte-americano premiado pelo Man Booker Prize em 2016 com o romance The Sellout, após a adoção de critérios de seleção mais amplos em 2014, quando a organização passou a considerar não somente escritores do Reino Unido, Irlanda e da comunidade britânica, mas também de qualquer outra nacionalidade (EUA, Canadá, Jamaica, Índia, Paquistão etc), desde que a obra tenha sido escrita originalmente no idioma inglês e publicada no Reino Unido.

The Sellout foi traduzido por Rogério Galindo e lançado no Brasil no ano passado pela Editora Todavia com o título de O Vendido, o livro já havia sido premiado nos Estados Unidos com o National Book Critics Circle Award de 2015, chegando a ser comparado pelo júri do Man Booker Prize com obras escritas por Mark Twain e Jonathan Swift, mestres do gênero da sátira. Após ler o romance, a minha avaliação é de que a crítica social de Paul Beatty, com base em um humor corrosivo e corajoso, alcança o nível dos textos de Kurt Vonnegut, Thomas Pynchon e Junot Díaz, outros grandes resenhistas da sociedade contemporânea nos Estados Unidos.

A narrativa é conduzida em primeira pessoa por um protagonista com o sugestivo nome de "Eu", iniciando com o julgamento de um processo na Suprema Corte dos Estados Unidos no qual ele é acusado de violar as Leis de Direitos Civis e Emendas Constitucionais do país. Paul Beatty escreve sobre a fragilidade das relações raciais nos EUA e a hipocrisia das conquistas relativas à integração racial por meio do seu narrador americano negro que, para afirmar a sua identidade afro-americana procura, de forma totalmente improvável, restabelecer a escravatura e a segregação racial. O trecho abaixo, parágrafo de abertura do romance, oferece um bom exemplo do texto provocativo e politicamente incorreto que será adotado em todo o romance, uma verdadeira coletânea de insultos raciais que nos fazem perceber diariamente como a Constituição não é seguida na prática — tanto nos EUA quanto no Brasil — quando define que: "todos são iguais perante a lei".
"Pode ser difícil de acreditar vindo de um negro, mas eu nunca roubei nada. Nunca soneguei impostos nem trapaceei no baralho. Nunca entrei no cinema sem pagar nem fiquei com o troco a mais dado por um caixa de farmácia indiferente às regras do mercantilismo e às expectativas do salário mínimo. Não assaltei uma casa. Não roubei nenhuma loja de bebidas. Nunca entrei num ônibus ou num vagão de metrô lotado, sentei no lugar reservado para idosos, tirei meu pênis gigante da calça e me masturbei até gozar com um olhar pervertido, ainda que um pouco abatido. E, no entanto, aqui estou eu, nas cavernosas instalações da Suprema Corte dos Estados Unidos, com meu carro estacionado de maneira ilegal e de certo modo irônica na Constitution Avenue, as mãos algemadas atrás das costas, já tendo abandonado e dito adeusinho ao meu direito de permanecer calado, enquanto me mantenho sentado numa cadeira com um estofado grosso que, mais ou menos como este país, não é tão confortável quanto parece." (Pág. 7)
Nascido em Dickens, um "gueto agrário" na periferia de Los Angeles, o protagonista sempre viveu em uma fazenda e serviu de cobaia para os estudos de comportamento racial conduzidos pelo pai, um sociólogo que pretendia aplicar a teoria de Piaget do desenvolvimento cognitivo no próprio filho, em experiências violentas que lidavam com os reflexos condicionados da criança, até mesmo com a aplicação de choques elétricos. Por outro lado, o pai desfrutava de um ótimo conceito na comunidade negra da cidade e era conhecido por suas habilidades de negociação com suicidas em potencial, sendo chamado de "Encantador de Crioulos". Tudo muda na vida de Eu quando o pai é morto em um tiroteio com a polícia e a cidade de Dickens é repentinamente excluída do mapa da Califórnia.

Morador mais famoso de Dickens, Hominy Jenkins é o último ator vivo da série "Os Batutinhas", "ele é um constrangimento vivo da cultura americana. Uma nódoa lastimável no legado afro-americano, algo que deve ser retirado dos registros raciais, como imitações grotescas de negros", sempre interpretou papéis cheios de estereótipos da raça negra e se acha "um escravo que por acaso também é ator". Após salvar a vida de Hominy Jenkins, que tentava se enforcar, Eu recebe um insólito pedido do amigo, espancá-lo sem piedade, como a um escravo.
"Dizem que precisaram de três policiais pra me tirar de cima dele, porque chicoteei aquele crioulo até quase matá-lo. Meu pai teria dito que eu estava sofrendo de 'transtorno dissociativo' (...) Eu adoraria dizer que despertei de meu próprio estado de fuga e que só tinha lembrança das fisgadas nas minhas feridas policiais enquanto Hominy as limpava com bolas de algodão embebidas em água oxigenada. Mas, enquanto eu viver, jamais vou esquecer o som do meu cinto de couro correndo pela calça jeans Levi´s enquanto eu o tirava. O assobio daquele chicote marrom e preto cortando o ar e caindo pesado com um barulho de trovão na pele das costas de Hominy. As lágrimas de alegria e a gratidão que ele demonstrava enquanto rastejava, não para fugir da surra, e sim para chegar mais perto dela, buscando colocar um ponto-final em séculos de raiva reprimida e em décadas de subserviência não recompensada abraçando meus joelhos e implorando que eu batesse mais forte, seu corpo negro dando boas-vindas ao peso e ao sibilo do meu chicote com rastejantes barulhos guturais de êxtase." (Págs. 90 e 91)
Tentando assumir o legado do pai como "Encantador de Crioulos", Eu percebe que, contraditoriamente, o retorno das práticas de segregação racial como representação da recuperação da própria cidade de Dickens é a solução para muitos dos conflitos da sociedade local. Afinal, "O Apartheid uniu a África do Sul, por que não podia fazer o mesmo por Dickens?". Ou nas palavras de uma das personagens, professora da escola local que admite o retorno da segregação dos alunos como solução: "O problema é que a gente não sabe quando a integração é um estado natural e quando é artificial. Será que a integração, forçada ou de outro tipo, é entropia ou ordem social?".

Em uma das muitas ações subversivas levadas a cabo na cidade por Eu (não há como deixar de pensar neste protagonista como uma espécie de alter ego do autor, ou até mesmo do próprio leitor, com um nome assim tão evidente) está a colocação de um aviso nas janelas no terço dianteiro do ônibus dirigido por sua namorada: "ASSENTOS PREFERENCIAIS PARA IDOSOS, DEFICIENTES E BRANCOS", um retrocesso histórico que irá chocar os intelectuais locais. Esta sequência de ações contestadoras irá levá-lo ao julgamento. 

Um livro inteligente e até mesmo perturbador em seu humor neurótico, mostrando uma realidade brutal e sem retoques, produto de décadas de preconceito e falsas políticas de integração racial. De fato, o autor conseguiu muito mais do que uma sátira de costumes, desnudando o que ninguém quer ver, sejam "branquelos" ou "crioulos". O romance, que já é bem difícil de ser assimilado, se torna ainda mais complexo para o leitor brasileiro devido às inúmeras referências ao contexto político e eventos históricos da sociedade norte-americana. De qualquer forma, nada que prejudique o ritmo da narrativa e, de qualquer forma, o preconceito não é um comportamento tão estranho assim à nossa própria sociedade, não é mesmo?
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